segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CAPÍTULO 21 - 93 MILION MILES - PENÚLTIMO CAPÍTULO

MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:




Amanda enxugou as lágrimas que teimavam em escorrer por seu rosto. A última coisa que desejava era estragar aquele momento que, para Juliana, deveria ser de inteira e absoluta felicidade. No entanto, não cabia à ela evitar. Acima de tudo, não estava disposta a fazer o tipo de concessões necessárias para que a tristeza e o constrangimento que já estavam instaurados parecessem não existir.
- O que eu posso fazer, Amanda? Não tem como ser diferente, infelizmente.
Segurou as mãos da irmã e a olhou nos olhos antes de falar:
- Eu sei. Por isso mesmo vou te pedir pra compreender o meu lado, como estou compreendendo o seu.
Respirou fundo antes de explicar o que deveria ser óbvio, só que não:
- Se eu te convidasse pra ser madrinha do meu casamento junto com um padrinho que não fosse o seu noivo, seria estranho, não seria? E você não aceitaria, né? Comigo e com a Mirella não é diferente. Ela é minha mulher, Ju. A igreja católica, seu noivo, a família dele e nossos pais não admitem que eu seja madrinha com ela porque pra eles casal é homem e mulher. Então...
Permitiu-se ser irônica:
- Eu não aceito. Não tenho como aceitar.
Foi a vez de Juliana chorar. As lágrimas escorreram em profusão enquanto pedia:
- Me desculpa...
Amanda estendeu os guardanapos de papel que estavam sobre a mesa para a irmã, que pegou um e o usou para limpar o rosto:
- Eu sinto muito.
Uma parte de Amanda se comoveu a ponto de se sentir arrependida. A outra acolheu e compartilhou a tristeza de Juliana, mas não a culpa, esta não lhe pertencia: 
- Acredite, ninguém sente mais do que eu.
Nem tentou disfarçar o que estava sentindo, seria inútil, pois a irmã gêmea a conhecia e sabia:
- Estarei no seu casamento como o resto dos mortais comuns, se a Mirella for convidada. Caso contrário, não posso fazer nada, sem a minha mulher eu não vou.
A  resposta indignada de Juliana foi imediata:
- É óbvio que a Mirella vai ser convidada! E a Marina e a Débora também.
Amanda deu as costas para a irmã, caminhou até a janela e olhou para fora. Não viu a beleza do anoitecer, seu olhar e sua mente estavam distantes, dias atrás, na comemoração do próprio casamento na casa de Cris e Maria...


Tinha sido incrivelmente fácil decidir os pormenores porque tanto ela quanto Mirella desejavam a mesma coisa: festejar o casamento que já tinha sido realizado no civil dias antes com as pessoas que amavam e que as amavam. Acabaram decidindo por não fazer qualquer tipo de cerimônia, já que nenhuma das duas seguia uma religião específica. 
Maria tinha se oferecido para criar “algo ecumênico” com os amigos que ela chamava de “pessoal da trupe”, mas conhecendo o pensamento inteiramente não convencional de Maria, haviam recusado educadamente. Sozinhas em casa, Mirella expressara o mesmo medo de Amanda:
- Vai que ela nos faz dançar peladas, atravessar um caminho de brasas descalças, cantar nossos votos ou algo do gênero?
Riram juntas naquele momento e em vários outros depois, conjecturando sobre possíveis rituais que Maria inventaria.
A grande surpresa de Mirella tinha sido algo que Amanda jamais esperaria:
- Sempre pensei que você fosse querer usar vestido de noiva.
Não escondeu a própria perplexidade:
- De onde você tirou isso?   
Mirella deu de ombros e Amanda insistiu:
- Taí algo que eu nunca quis. Aliás, eu odiei o meu vestido de primeira comunhão.
Com um sorriso repleto de segundas intenções e um tom deliciosamente provocante, Mirella a puxou para si:
- Deve ter ficado linda... E tenho certeza que também ficaria magnífica de noivinha...
Amanda riu:
- Ah, então na verdade a fantasia é sua e não minha...
Antes de percorrer o pescoço de Mirella com os lábios, causando arrepios. Parou perto do ouvido dela e soprou:
- Tá bem a fim de comer uma noiva, né?
Arrancou uma risada de Mirella, que respondeu à altura:
- Uma noiva não, meu amor... Você, de noiva. Uhm... Eu adoraria!
Deixando Amanda seriamente tentada a mudar de ideia.
Por fim, mantiveram o plano original, de celebrarem sem grandes gastos, de forma mais simples, íntima e descontraída.  
Mirella não convidou a família, sequer comunicou os pais.
- Não vejo razão pra isso.
Decisão que Amanda respeitava e admirava, mas ainda estava muito longe de seguir. 
A esperança, que mantivera até o último momento, tinha se partido em mil pedaços quando Juliana chegou sozinha. Verbalizara muito mais para si mesma, numa tentativa inútil de se conformar e tornar menos doloroso:
- O pai e a mãe não vão mesmo vir, não é?
O olhar de Juliana refletiu o sofrimento de Amanda como um espelho. A cumplicidade que dividiam continuava ali, sempre presente. Mas naquele instante, pela primeira vez se viram em lados opostos e distintos. O que não as levava absolutamente a qualquer tipo de rancor, mágoa ou conflito. Pelo contrário. Mais complementares do que jamais haviam sido, se reencontraram num abraço que deixava claro que, a despeito de tudo e todos, o laço entre elas nunca seria rompido.
Apesar daquele único instante de tristeza, a noite transcorreu de forma absolutamente maravilhosa, tendo como ponto alto o momento que Amanda guardaria para sempre em seu coração e em sua mente. Aquele em que, depois de dizer que aquela música era especialmente dedicada ao novo casal, Maria tinha cantado:

“Entre as coisas mais lindas que eu conheci
Só reconheci suas cores belas quando eu te vi...”

Dançando com Mirella, os olhos presos aos dela, a emoção transbordando das duas de forma nítida e límpida, selando todas as promessas e juras de amor que já haviam trocado, acrescentando uma ainda mais bela:

“E as coisas lindas são mais lindas
Quando você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas
Porque você está
Onde você está
Hoje você está
Nas coisas tão mais lindas.”
(As Coisas Tão Mais Lindas - Nando Reis)

E refletindo com perfeição a vida que tinha escolhido, repleta de felicidade, nos braços de Mirella e cercada por pessoas que estavam ali, com elas e para elas, incondicionalmente. Sem que precisassem fingir, esconder, mudar ou deixar de ser quem e como eram. Amor incondicional. Algo do qual nunca, jamais se arrependeria.  


Foi trazida de volta à realidade ao ser abraçada por trás pela irmã:
- Amanda... Não fica assim, por favor...
Neste exato momento, a porta da sala se abriu e Mirella entrou no apartamento. Bastou apenas um olhar para Amanda para perceber o estado em que ela se encontrava, mas não disse nada a respeito. Largou a bolsa em cima do sofá e cumprimentou Juliana:
- Olá, cunhada! Como vão os preparativos pro casamento?
Juliana tentou sorrir:
- Uma loucura. 
Mirella sorriu de volta:
- Só imagino.
Depois voltou toda sua atenção para Amanda. Enlaçou-a pela cintura e a beijou nos lábios:
- Oi, amor.
Com os braços ao redor do pescoço de Mirella, Amanda correspondeu e depois sorriu:
- Como foi o seu dia?
O sorriso que recebeu de volta a ofuscou completamente:
- Ótimo e o seu?
A ponto de se tornar verdade:
- Foi ótimo também.
A simples presença de Mirella e sua nova realidade, que era a felicidade de compartilhar cada dia e toda a sua vida com a mulher que amava, fazia com que todo o resto parecesse besteira. 
Depois de conferir o próprio celular, Juliana aproveitou para dizer:
- Eu já estava mesmo de saída. Preciso voltar pra Rio do Sul ainda hoje.
Mirella prontamente ofereceu:
- Quer que a gente te leve até a rodoviária?
Com um embaraço indisfarçável, Juliana recusou:
- Não precisa, o Fabrício está me esperando lá embaixo.
Desnecessária qualquer explicação, na mesma hora tanto Mirella quanto Amanda formularam mentalmente a razão do noivo de Juliana não ter subido com ela. Seria engraçado se não fosse tão lamentável. 
O silêncio que se estabeleceu foi quebrado pela rápida e breve despedida de Juliana. Amanda fez questão de abraçar a irmã com força antes que ela entrasse no elevador. Quando fechou a porta do apartamento atrás dela, Mirella a chamou:
- Vem cá, meu amor.
Segurando Amanda com firmeza em seus braços, beijou-a com todo o seu carinho, com todo o seu amor. Não precisou indagar, assim que as bocas se separaram, Amanda contou o que havia acontecido. 
- Você não está fazendo isso por mim, está?
Foi a única coisa que Mirella perguntou. A resposta de Amanda não continha hesitação alguma:
- Estou fazendo por nós duas. Mais por mim do que por você, aliás. 
O olhar que Mirella lhe lançou deixou evidente que ela ainda não estava inteiramente convencida e levou Amanda a desabafar:
- Fiquei furiosa com o convite, achei um absurdo, me deixou indignada e profundamente ofendida. Não tem cabimento, não vou entrar na igreja de braço dado com o melhor amigo do noivo enquanto a minha mulher fica olhando. Eu me recuso, não vou fingir ser o que eu não sou, muito menos abaixar a cabeça pra essa merda de heteronormatividade compulsória, nem mesmo pela Juliana!
Mirella não disse nada, apenas esperou que Amanda continuasse, como sabia que faria:
- Eu nunca tinha me decepcionado com a minha irmã.
As lágrimas escorreram sem que Amanda tivesse controle. Mirella a manteve nos braços e permaneceu em silêncio, apenas escutando-a:
- Tudo bem, eu entendo que nesse momento ela não quer brigar com o pai nem com a mãe, muito menos com o Fabricio, mas... 
Os soluços a impediram de prosseguir. Mirella a amparou, apertando-a fortemente contra si, desejando ser capaz de diminuir o sofrimento dela ao menos um pouquinho. Conseguiu, pois Amanda chorou, agarrada à Mirella, encontrando nos braços dela conforto e alívio. 
Só muito depois, quando Amanda se acalmou e enxugou o rosto, Mirella finalmente falou:
- Se coloca no lugar da sua irmã, meu amor. Também não é justo você querer que ela deixe de realizar o sonho dela de casar na igreja, com tudo que tem direito, por sua causa. Eu sei que essa diferença dói, que essa exibição do que os seus pais estão te negando magoa mais ainda, mas... Tenho certeza que não deve estar sendo fácil pra Juliana também.
Se fosse possível, naquele momento Amanda teria se apaixonado por Mirella novamente. Pois tinha plena consciência de que seria muito mais simples e confortável para ela desqualificar Juliana e os pais pela maneira que estavam se comportando, mas colocar Amanda contra a própria família era algo que Mirella jamais faria.
- Eu sei que não. Mas isso não faz com que seja menos difícil pra mim.
Deixou escapar um suspiro antes de dar o assunto por encerrado:
- Vamos esquecer isso e aproveitar que hoje é sexta-feira?
Mirella sorriu e, com uma das sobrancelhas levantadas, lançou:
- Alguma sugestão?
Sabendo perfeitamente que Amanda já havia pensado em tudo e tinha a resposta pronta desde de manhã cedo:
- Pizza, cerveja e filme?
A concordância foi imediata:
- Perfeito!
Exaustas após uma semana repleta dos aborrecimentos que o casamento de Juliana continuava lhes trazendo, tanto Amanda quanto Mirella desejavam o mesmo: um pouco de sossego. 


A primeira coisa que Mirella fez quando acordou foi se virar para a fonte de calor em suas costas. A intenção não era despertá-la, mas não foi capaz de se conter. Abraçou Amanda e a beijou, de forma inteiramente apaixonada. Felizmente, ela se encontrava mergulhada num sono profundo, só deixou escapar um som delicioso ao ser apertada e beijada. Mirella se afastou, para poder admirá-la, o coração batendo ainda mais rápido com a certeza de que queria e iria começar todos os dias assim, daquele jeito, com ela ao seu lado. Um sonho, um desejo que agora era a sua realidade.
A juventude da mulher que tinha nos braços não a fez temer, pois ao invés de se questionar se duraria, por quanto tempo Amanda se manteria interessada ou algo do tipo, preferiu a firmeza do que sentia: tinha finalmente encontrado a felicidade, não a estragaria nem contaminaria com inseguranças e medos, a agarraria com as duas mãos e a viveria em sua plenitude.
Voltou a beijar Amanda, desta vez com tanto ímpeto que a despertou. Soube quando Amanda correspondeu, com uma veemência absolutamente recíproca. 
Se havia algo que Amanda adorava, era acordar ali, nos braços de Mirella, sabendo e sentindo que seu amor era retribuído. Quando as bocas se separaram, tinha um enorme sorriso nos lábios. Puxou-a com força para si, encaixando Mirella por cima, encostou a boca no ouvido dela e soprou:
- Bom dia, amor da minha vida.
Mirella estremeceu nos braços de Amanda, deixou escapar um gemido deliciado antes de responder:
- Bom dia, minha mulher maravilhosa, meu amor.


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Postado em 19 de novembro de 2018 às 18h.

Um comentário:

  1. Amei o cap.
    Infelizmente amanda esta tendo a noção do q é a família dela.
    O maior desgosto, Juliana, pois o amor delas é incondicional,
    ao menos Amanda pensava assim.
    Acredito q Juliana a ame, mas tem mtas variantes q sufocam.
    Mirella e Amanda estou amando a relação delas.
    Parabéns Di, um cap. maravilhoso.

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