segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CAPÍTULO 20 - DRIVE


MÚSICA QUE INSPIROU O CAPÍTULO:

Amanda e Débora caminharam toda a Beira-Mar falando amenidades, nenhuma das duas queria estragar a leveza do momento entrando em assuntos polêmicos ou que lhes causassem ansiedade, mas foi impossível evitá-los quando pararam para descansar no píer perto do totem “Sou bem Floripa”.
Amanda foi a primeira a perguntar:
- Cadê a Marina?
Espantou-se com a resposta sereníssima de Débora:
- Não faço ideia. Ela vai me ligar no fim da tarde pra gente combinar alguma coisa.
Totalmente inédito e inesperado, a prova real e concreta do quanto a relação das duas tinha mudado.
- E a Mirella?
O sorriso de Amanda transgrediu toda e qualquer moralidade possível:
- Vai me ligar quando sair do trabalho.
Confiava em Débora o suficiente para perguntar:
- O que você acha do que eu te falei?
Débora não se fez de rogada:
- Acho que você tem mesmo que mergulhar de cabeça. Se eu pudesse casaria com a Marina também.
Respirou antes de completar:
- Mas nossa situação é completamente diferente. Não temos a menor condição financeira pra morarmos só nós duas e nada a ver a Marina vir morar na casa da minha mãe, né?
Os sentimentos de Amanda continuavam em turbulência:
- Eu ainda não me sinto completamente confortável com o fato da Mirella ter tudo, eu só vou usufruir do que ela tem.
Na mesma hora, Débora a cortou:
- Ai, Amanda, para com isso. 
Olhou nos olhos de Amanda antes de concluir:
- Se a Marina tivesse um apartamento e como nos sustentar eu não pensaria duas vezes. Então chega de neura e aproveita! 
Amanda sacudiu a cabeça em acordo e tentou inutilmente afastar o verdadeiro motivo de sua preocupação. Acabou confessando:
- Só quero ver o que os meus pais vão dizer.
Débora inclinou a cabeça de leve para o lado antes de lançar:
- Bom... Esse final de semana você vai saber.
Se a intenção era tranquilizar Amanda, falhou inteiramente. 
Mirella não tinha sido convidada para o aniversário de Elaine. Pior, a mãe fizera questão de dizer com todas as letras que Mirella não era bem vinda, o que levara Amanda a cogitar não ir também. No entanto, Mirella tinha insistido para que Amanda fosse sozinha, até que, por fim, havia cedido. Mesmo sem saber ainda de onde tiraria coragem e força para comunicar o que tinha decidido.


No sábado de manhã, Mirella levou Amanda até a rodoviária. Tinha sugerido e insistido mil vezes para que ela fosse de carro, mas Amanda recusara, alegando que preferia ir de ônibus, pois não queria dirigir sozinha na estrada. 
Aproveitou para dar uma geral no apartamento, passou a manhã e boa parte da tarde nisso. Tinha acabado de sentar no sofá da sala, estava procurando algo para ver na TV quando o celular tocou, anunciando uma chamada de Amanda no whatsapp. Estranhou o fato de ser em áudio e não em vídeo como sempre. 
A voz nitidamente anasalada deixava claro que ela estivera chorando:
- Estou no ônibus, indo pra casa, você pode me buscar na rodoviária?
O bastante para que a preocupação de Mirella atingisse seu limite, pois o planejado era Amanda só voltar no dia seguinte:
- O que houve? 
Amanda fungou antes de responder:
- Nada demais. Me desentendi com eles e não quis ficar. Prefiro te contar pessoalmente.
Antecipando a próxima fala de Mirella, tratou de tranquilizá-la:
- Não fica preocupada, amor. Eu estou bem, só preciso te ver.
Com um esforço imenso, colocou a própria necessidade de saber o que tinha acontecido de lado e respeitou a vontade dela:
- Vem, meu amor. Estou aqui pra você. Vou estar te esperando no desembarque, tá?
A suavidade amorosa e doce na voz de Mirella fez as lágrimas voltarem a escorrer pelo rosto de Amanda e embargou as palavras que fluíram sem que pensasse, a expressão real e verdadeira da emoção que, apesar de tudo, prevalecia:
- Eu te amo.
Sorriu, com a certeza de ser integralmente correspondida, ao ouvir:
- Eu também te amo. Demais.


Exatamente como prometera, quando Amanda passou pelo portão de desembarque, Mirella estava lá, esperando-a. Praticamente correu para os braços dela, que a recebeu da maneira intensa e ardente de sempre.
Não perguntou nada, manteve o silêncio enquanto caminhavam de mãos dadas até o estacionamento. Assim que se acomodaram lado a lado dentro do carro, Amanda se virou para Mirella:
- Me desculpa?
Mirella ergueu a mão direita, acariciou o rosto de Amanda, enxugando as lágrimas que escorriam. Soprou com doçura:
- Desculpar o quê, meu amor?
Ela respondeu com a dificuldade causada pelo choro:
- Te deixei preocupada... Por besteira.
Depois de beijá-la de leve nos lábios, Mirella abriu o porta-luvas, de onde tirou um rolo de papel higiênico. Esperou que Amanda limpasse o rosto e assoasse o nariz antes de afirmar:
- Se te faz sofrer não é besteira. 
Voltou a beijá-la, dessa vez com uma intensidade absolutamente apaixonada, que teve o poder de acalmar Amanda, a ponto de ela ter um sorriso nos lábios quando as bocas se separaram. 
- Vamos pra casa? Lá podemos conversar melhor.
Foi prontamente atendida.


Assim que entraram no apartamento de Mirella, ela pegou Amanda pela mão, conduziu-a até o sofá da sala – onde se acomodaram – e pediu:
- Agora me conta, quero saber o que aconteceu.
Amanda respirou fundo antes de começar:
- Quando eu cheguei tentei conversar com a minha mãe, mas ela nem me deixou falar. Disse que se era sobre você não queria nem ia me ouvir. Daí resolvi esperar e tentar de novo depois da festa, até porque assim que encontrei a Ju ela me contou que está grávida.
Mirella não escondeu a surpresa:
- De quem? Eu nem sabia que ela estava namorando.
O sorriso de Amanda continha uma tristeza irônica que doeu em Mirella:
- Não estava, saiu com esse carinha algumas vezes, ficou grávida e agora vão casar por causa do bebê.
O tom de Mirella mudou completamente, deixando claro que já antecipava a resposta antes mesmo de fazer a pergunta:
- E o que os seus pais acharam disso?
Durante um instante, o olhar de Amanda ficou perdido, mergulhado nas lembranças que não deviam ser, mas eram dolorosas, por tudo que continham. A primeira vez que se sentira excluída e rejeitada pela própria família. Tentou inutilmente sorrir, mas só conseguiu um esgar que doeu mais em Mirella do que as palavras que disse:
- Não poderiam estar mais felizes. Anunciaram o casamento no meio da festa, com direito a brinde, discurso e tudo mais. Não mencionaram a gravidez, claro.
Mirella sabia perfeitamente como Amanda estava se sentindo, ela mesma tinha passado por aquilo e mesmo após quase vinte anos sem falar com os pais e com a irmã, não tinha sido capaz de superar. Era uma ferida aberta, que ainda doía. Permaneceu em silêncio, totalmente impotente, pois nada que pudesse dizer ou fazer seria capaz de mudar a situação. Apenas continuou apoiando-a e ouvindo-a:
- Eu fiquei muito... Não sei nem como definir, sabe? Porque ficou muito evidente a hipocrisia deles, o cara é dez anos mais velho que a Ju e eles mal se conhecem. Pra mim tá claro que o problema não é com a sua idade, nem com a rapidez com que queremos nos casar, se você fosse homem nada disso importaria, seria fácil, “normal” e aceitável. 
Começou a chorar baixinho, fazendo com que Mirella a abraçasse e beijasse incansavelmente, como quem diz: “estou aqui, você não está sozinha”. 
Só muito depois, quando Amanda finalmente voltou a se acalmar, verbalizou:
- Meu amor, você está magoada e com razão, mas... Não está sendo um pouco injusta? Afinal, seus pais aceitavam a Flora.
A risada de Amanda continha uma terrível mistura de sarcasmo, desprezo e ironia:
- A minha mãe gostava da Flora porque sabia que eu não estava apaixonada, que não era sério e não ia dar em nada.
Mirella insistiu: 
- Você conversou com eles?
Levando Amanda de volta ao momento em que conseguira que Elaine e Ricardo a acompanhassem ao escritório para que finalmente pudessem conversar.
A palavra final viera da mãe, com o apoio integral do pai:
- Amanda, se você se casar com essa mulher pode esquecer que nós existimos.
Afastou rapidamente a recordação - dolorosa demais para que desejasse revivê-la -, limitou-se a resumir de forma sucinta:
- Tentei. Minha mãe manteve o que falou pra nós naquele dia e meu pai concordou com ela, exatamente como te falei. Eles vão cortar tudo, preciso devolver o apartamento pra imobiliária o mais rápido possível.
Imediatamente, Mirella a tranquilizou:
- Tudo bem, meu amor. Amanhã mesmo já começamos a sua mudança. 
Seria fácil e rápido, já que seriam apenas as roupas e os objetos pessoais de Amanda, pois os móveis pertenciam ao apartamento. No entanto, isso era o que menos importava. Beijou Amanda carinhosamente nos lábios, fez questão de deixar claro:
- A última coisa que eu quero é que você tenha que escolher entre eu e a sua família. 
Amanda sabia que era verdade. Mais do que isso, sentia o quanto Mirella estava consternada. Talvez até mais do que ela mesma:
- Eu sei. A culpa não é sua, meu amor, fica tranquila. Eles é que estão me obrigando a isso.
Foi a tristeza e a preocupação que viu no olhar de Mirella que a fez contar o que, até então, estava tentando omitir:
- Meus pais não vão parar de pagar a faculdade da Juliana. Vão ajudar a pagar o casamento e a montar a casa e tenho certeza de que não vão deixar de dar a mesada dela mesmo depois de casada. Só vão cortar a minha.
Fez uma breve pausa antes de concluir:
- Porque eu vou me casar com uma mulher e eles não aprovam isso.
As lágrimas escorreram pelo rosto dela. Mirella puxou Amanda para si e a embalou. O conforto que encontrou naquele abraço teve o poder de abrir e transbordar o que Amanda ainda estava tentando reprimir. Confessou em meio a um choro amargurado e aflito: 
- Não é que eu ache que a Ju não mereça... Eu amo a minha irmã... Estou tentando ficar feliz por ela, mas é foda, sabe? Estou... Estou me sentindo... Injustiçada é pouco, não tenho nem palavras pra definir...
Não era nada pelo qual Mirella não tivesse passado. Pelo contrário, tanto a situação quanto aquela dor e amargura lhe eram intimamente conhecidos. Com o rosto de Amanda entre as mãos e o olhos nos dela, afirmou:
- A culpa não é sua. E quem perde são eles, acredite. 
Ao ver Amanda sorrir, Mirella estranhou. A compreensão do motivo veio um instante depois:
- Mandei eles enfiarem o dinheiro no cú.
Foi a vez de Mirella rir:
- Eu te amo, sabia? 
Beijou-a e foi correspondida com o mesmo ímpeto. Quando as bocas se separaram, Amanda fez questão de declarar:
- Nós vamos ser muito felizes juntas.
Sem hesitação alguma, Mirella replicou:
- Pode ter certeza disso.


CONTINUA NA PRÓXIMA 2a feira...
OU... SÓ DEPENDE DE VOCÊ
INFORMAÇÕES ABAIXO:


- Qualquer leitor@ pode fazer a doação no valor de R$ 10,00 ou mais.

- A doação é voluntária, tod@s podem ler, participando ou não. Ou seja: não precisa doar para ler, pode ler sem doar.

- Como atingimos as 100 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 1.000,00 reais, as postagens agora serão duas vezes por semana, ou seja, teremos 2 capítulos por semana, às 2as e 4as feiras às 18h.

- Se atingirmos 150 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 1.500,00, serão postados três capítulos por semana.

200 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 2.000,00 = quatro capítulos por semana. 

250 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 2.500,00 = cinco capítulos por semana. 

300 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 3.000,00 = a história será postada inteira.



- As doações serão revertidas para os próximos projetos da autora (que são muitos!)

Para colaborar basta clicar no botão abaixo: 














Clique no botão acima para fazer a sua contribuição.



A AUTORA AGRADECE IMENSAMENTE 
A SUA COLABORAÇÃO!


OBS IMPORTANTE:   Se preferir fazer a sua contribuição por transferência bancária ou depósito na conta da autora, por favor entre em contato:

diedraroiz@gmail.com

https://www.instagram.com/diedraroiz

https://www.facebook.com/Diedraroiz

http://www.youtube.com/user/DiedraRoiz



RECAPITULANDO:
Postagens 2as e 4as feiras às 18h

Se atingirmos:
150 cotas = postagens 3x por semana
200 cotas = 4x por semana
250 cotas = 5x por semana
300 cotas = história postada na íntegra


Postado em 14 de novembro de 2018 às 18h.

2 comentários:

  1. Esse cap. exemplifica mto bem qdo falo q família é quem nos ama e não quem tem o mesmo sangue.
    Maravilhoso, q o amor 'seja infinito enquanto dure'

    ResponderExcluir
  2. Amanda está crescendo...com todas as dores e alegrias que esse crescimento implica e felizmente com o apoio incondicional de Mirella. Amanda está ficando mais confiante naquilo que quer para a sua vida. Se para ser feliz tem de deixar para trás a família e seus preconceitos e vidas de aparências está no caminho certo...Amar é querer a felicidade do outro e encontrar pessoas que nos queiram assim é difícil...
    Muito bom ver a transformação da Amanda...
    Beijos ;)

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário, sua opinião é muito importante!