segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CAPÍTULO 19 - PLEASE, PLEASE, PLEASE, LET ME GET WHAT I WANT


MÚSICA QUE INSPIROU O CAPÍTULO:

Assim que se viu novamente à sós com Amanda, Mirella segurou as mãos da namorada nas dela, olhou em seus olhos e disse:
- Eu entendo a sua posição, meu amor. Mas me escuta, por favor?
A suavidade com que o pedido foi feito o tornou irrecusável. Com um aceno de cabeça, Amanda concordou. Mirella então prosseguiu:
- Eu namorei com a Liliane durante seis anos. Nem eu nem ela tínhamos dinheiro para sair das casas de nossos pais. Os meus não aceitavam e os dela nem sabiam da nossa relação. Nos anos 90 não existia a possibilidade, sequer pensávamos em união estável, muito menos que um dia poderíamos nos casar de verdade, entende? Quando finalmente conseguimos ter estrutura e independência financeira, fomos morar juntas. Meses depois ela morreu. Esse ano completa 18 anos.
Fez uma pausa significativa e bastante emocionada antes de continuar:
- Eu esperei muito tempo por você. 
Com o olhar profundamente ligado ao dela, aproximou os lábios dos de Amanda e imprimiu no beijo que se seguiu todo o amor, paixão e carinho que sentia. Depois, se afastou apenas o suficiente para concluir:
- O que eu quero dizer é: pra que esperar, se nos amamos e podemos ser felizes juntas agora?
Por um lado, Amanda queria muito concordar, pois seu desejo não era diferente, casar com a mulher que amava era o que mais queria. Por outro, não podia nem iria arriscar colocar tudo a perder:
- Eu não tenho nada. Meus pais me sustentam, pagam meu aluguel e tudo mais. Se eu for morar com você, eles vão cortar todo e qualquer apoio financeiro. Você viu a posição da minha mãe. E meu pai vai concordar com o que ela disser. 
Para Mirella era simples:
- Eu ganho o suficiente pra nós duas.
Para Amanda nem tanto:
- Sim, mas mesmo assim. Eu nunca vou me sentir confortável se tiver que te pedir dinheiro quando eu precisar de alguma coisa, por exemplo. Ser sustentada, receber mesada dos meus pais é uma coisa, da minha mulher é outra.
Foi só então que Mirella compreendeu que precisava esclarecer:
- Acho que você ainda não entendeu. Eu não estou te convidando pra morar comigo, eu estou te propondo casamento. Você não vai ter mesada nem vai precisar me pedir nada, o que é meu vai ser seu também.
Amanda sorriu, achou lindo ouvir aquilo. No entanto, uma parte dela se incomodava - e muito - com a desigualdade entre elas. Soltou-se de Mirella, foi numa distância que não era apenas física que perguntou:
- Eu posso ser sincera?
Mirella não tentou segurá-la nem se aproximou de novo. Respeitou-a. Mais do que isso, foi inteiramente receptiva:
- Sempre.
Deixando Amanda à vontade para dizer exatamente o que pensava:
- Isso é “cinderela” demais pra minha cabeça. Vai parecer que estou te explorando, as pessoas vão dizer que eu casei por interesse, que dei “o golpe do baú” e outras coisas maldosas e cruéis do gênero.
Mesmo se Mirella não a conhecesse saberia o quanto a sua preocupação era verdadeira, pela expressão de Amanda e pelo que viu em seus olhos. Por mais breve que fosse, perceptível para quem estava tão intimamente interligada, a ponto daquela dor também se tornar dela. Segurou o rosto de Amanda entre as mãos e soprou:
- Amanda... Amor... Meu amor...
Antes de provar seus lábios com doçura. O beijo foi rápido, um mero roçar, mas repleto de significado, deixou evidente do que se tratava. Um encontro de almas, que se intensificou ainda mais no olhar, no tom e no que falou:
- Sempre serei 26 anos mais velha, sempre estarei 26 anos na sua frente. Esperar até você se formar não vai mudar isso nem vai impedir que as pessoas falem.
Com o rosto colado no de Mirella, sentindo o prazer imensurável que era tê-la nos braços e estar nos braços dela, Amanda deixou escapar um suspiro. Depois, beijou-a e foi integralmente correspondida. 
Sentindo-se mais segura e ainda mais próxima de seu objetivo, Mirella se afastou apenas o suficiente para indagar, com uma suavidade doce, que Amanda achou deliciosa e belíssima:
- Sabe o que eu quero saber? O que realmente importa? Você quer casar comigo?
Respondeu sem hesitação alguma:
- Claro que eu quero. 
O sorriso de Mirella pareceu iluminar tudo, o quarto, o apartamento, o mundo, a própria vida:
- Nós nos amamos e queremos o mesmo, então vamos construir nossa relação, vamos superar os problemas que possam surgir juntas. Foda-se o que pensam ou falam os outros! O que você me diz?
Amanda não sorriu de volta, foi com um esforço e uma dificuldade indisfarçáveis que se manteve firme e defendeu seu ponto de vista:
- Meu amor... Me desculpa, mas... A minha resposta não mudou, porque o que eu sinto continua sendo o mesmo. Quero muito me casar com você, só que não agora, não desse jeito. 
A reação de Mirella foi inteiramente instintiva e verdadeira. Soltou-se de Amanda e recuou, sem ter como nem porque esconder a própria decepção. 
O que viu nos olhos dela fez Amanda tentar se justificar:
- Eu te amo, eu... Só não estou pronta... Não ainda...
O fato de Mirella permanecer distante, imóvel e calada levou Amanda a pedir, quase com desespero:
- Por favor, tenta me entender... 
Mirella levou um tempo pensando e pesando as palavras. No entanto, não deixou de ser sincera:
- Eu te entendo. Mas isso não faz com que eu consiga deixar de sentir o que estou sentindo.
Amanda avançou em direção à ela e, com o mesmo ímpeto, segurou o rosto de Mirella entre as mãos e a beijou apaixonadamente. Ao ser inteiramente correspondida, enfiou as mãos por baixo da blusa dela, buscando pele, segurança, certeza de que nada havia se perdido. 
Com uma firmeza delicada e decidida, Mirella a segurou pelos pulsos e a afastou, interrompendo o contato e impedindo-a de prosseguir. 
Ainda piscando, inteiramente surpresa e sem compreender direito, Amanda a olhou. Sustentando o seu olhar, Mirella imediatamente esclareceu:
- Não é assim que vamos resolver isso.
Sexo de compensação, repleto de mágoa, era a última coisa que queria fazer com a mulher que amava. Entretanto, Amanda não compreendeu. A voz dela soou frágil, insegura, inteiramente perdida:
- Você está muito chateada comigo?
Mirella enxugou as lágrimas que escorreram pelo rosto da namorada com o mesmo carinho com que respondeu:
- Chateada não é a palavra certa. 
Respirou fundo antes de dizer:
- Agora sou eu que vou pedir para você tentar me entender. 
Completou num tom que mesclava tristeza, cansaço, ternura e algo mais, que Amanda não foi capaz de nomear:
- Quero ficar sozinha, pensar um pouco.  
Fez uma breve pausa, desviou o olhar do de Amanda ao concluir:
- Vou pra casa.
Beijou-a de leve, um mero roçar de lábios, tão doce e suave quanto a maneira que soprou:
- Nos falamos amanhã.  
Depois se virou, pegou a bolsa e saiu, fechando a porta atrás dela e deixando Amanda sozinha no meio da sala, com a mais profunda impressão de perda.


Durante todo o percurso de carro, Mirella lutou contra o que estava sentindo. Da mesma forma, tentou não pensar no que tinha acabado de acontecer, mas foi igualmente impossível. Apenas o enorme auto controle que possuía - graças aos anos forçando-se a erguer a cabeça e dar a volta por cima - impediu que as lágrimas que lhe ardiam os olhos caíssem. Resistência que se esvaiu em um choro convulsivo assim que entrou em seu apartamento, antes mesmo que trancasse a porta atrás de si. 
Num primeiro momento, entregou-se àquilo, se permitiu colocar para fora a enxurrada que transbordou, soluçando toda a tristeza, solidão e o sentimento de rejeição que estava sentindo. Sabia que passaria e quando aconteceu, parou para pensar, buscando a racionalidade que lhe era habitual e característica. Admitiu para si mesma que estava fazendo uma tempestade num copo d’água, sendo infantil e absolutamente injusta com Amanda. A última coisa que queria era atropelar o tempo dela. Não tinha como nem jamais poderia ser o mesmo, não só pela diferença de idade mas pela diversidade de experiências de vida. Cabia à ela, Mirella, respeitar e aceitar as decisões, necessidades e medos da mulher que amava, colocar o sentimento e a felicidade de Amanda no mesmo patamar que os seus próprios. Claro que para alguém tão acostumada a ser sozinha e a se colocar em primeiro lugar era difícil. Mas o que era fácil na vida?
O último questionamento a fez sorrir e depois rir de si mesma, se comportando como uma criança imatura, mimada e “contrariadinha”.
Voltou à si, retomou o equilíbrio e então percebeu que já havia anoitecido. Lavou o rosto, andou pela casa acendendo as luzes, serviu-se de uma dose de uísque, pegou o celular, pronta para falar com Amanda e surpreendeu-se ao encontrar uma mensagem dela no whatsapp, de mais de uma hora atrás: “preciso falar com vc, pfv me liga”.
Não pensou duas vezes, obedeceu imediatamente. Amanda atendeu no primeiro toque:
- Mirella?
O desespero indiscutivelmente anasalado na voz dela causou um aperto no coração de Mirella:
- Oi, meu amor. Desculpa a demora, eu só vi sua mensagem agora. Tudo bem?
Amanda deixou escapar num suspiro de puro alívio:
- Sim.
Respirou antes de enfatizar:
- Agora que você me ligou, está tudo bem.
Afastou toda e qualquer dúvida ou hesitação, mas não foi capaz de evitar o leve tremor que a emoção imprimiu em sua fala:
- Eu preciso muito ver você... Ainda hoje.
A mistura de insegurança e súplica fez com que o próximo passo se tornasse evidente para Mirella:
- Agora mesmo, só me diz onde você está.
Pegou a bolsa e a chave do carro, estava pronta para sair quando ouviu a resposta:
- Estou aqui na sua porta.


Depois que Mirella a deixou sozinha, Amanda permaneceu parada, olhando para a porta, durante um tempo que não foi capaz de definir. Quando finalmente percebeu que ela não voltaria, deixou-se envolver pela dor daquele imenso vazio. 
Chorou e chorou e chorou..
Até não ter mais lágrimas, até perder a noção do motivo.
Lutou contra si mesma, uma batalha perdida, aquela que a levava a se culpar,  não só pelo que havia recém acontecido mas também pela avalanche que a atravessou, de forma inexorável, trazendo de volta aquilo que já julgava enterrado e esquecido. Como se Mirella, Michelle e Laura assumissem a mesma figura emblemática de pecado, erro e culpa, amor e felicidade inatingíveis.
Foi aí que parou e retornou à razão. Pois tal comparação era algo que Mirella não merecia, pois era diferente e maravilhosa, em tudo e em todos os sentidos.
Parte de Amanda viu-se imediatamente impulsionada a ceder e conceder, fazer o que Mirella queria. Qualquer coisa, desde que a mulher que amava ficasse feliz. Outra parte dela, no entanto, pulsou uma verdade inversa ao que sua metade mais fraca e vacilante pedia. Se pretendia – e iria – viver com Mirella e ser realmente feliz ao seu lado, precisava aprender a se impor sem medos ou culpas. Tinha plena consciência de que aquela era apenas a primeira, não seria a última vez que pensariam e desejariam coisas distintas. Discordar fazia parte e precisavam aprender a lidar com isso. 
Passou mais algum tempo elucubrando o que fazer e como agir, sem chegar a uma conclusão satisfatória. Respeitar o tempo e o espaço que Mirella tinha pedido ou mostrar à ela o que queria, sentia e pensava de forma concreta?
Quando deu por si, já tinha pedido o uber. Em questão de minutos, estava na portaria do prédio dela. O porteiro já a conhecia e, como sempre, a deixou subir sem avisar nem fazer perguntas. Porém, assim que chegou na frente da porta do apartamento de Mirella, retomou todas as inseguranças e dúvidas.
Ao invés de tocar a campainha enviou uma mensagem pelo whatsapp e esperou... Tanto que pareceu passar uma vida. 
Acabou sentando no chão, com as costas apoiadas na parede do corredor ao lado da porta do apartamento de Mirella, com o celular nas mãos, sem perder a esperança de que a resposta viria. Estaria ali, pronta para recebê-la, pouco importava se demoraria horas ou dias. 


A perplexidade de Mirella não podia ser maior ao abrir a porta e deparar-se com Amanda ali, sentada no chão. 
Assim que a viu, Amanda se levantou e foi em direção à Mirella, mas exatamente como na primeira vez em que tinham se encontrado na rodoviária, parou na frente dela, incerta do quanto e se deveria e poderia avançar. Fato que não passou despercebido à Mirella que, sem qualquer hesitação ou demora, a puxou para a si e envolveu Amanda num abraço protetor e apertado.
- Ah, meu Deus... Faz muito tempo que você está aqui?
Deliciada com a recepção e com o conforto e o prazer que estar de novo nos braços de Mirella causava, Amanda respondeu de um jeito absolutamente bem-humorado: 
- O suficiente para alguns vizinhos me olharem atravessado.
Riram juntas antes de Mirella conduzir Amanda para dentro do apartamento. Trancou a porta sem permitir que ela se afastasse, segurando-a junto de si. Depois, se virou, a abraçou com força, colando os dois corpos enquanto pedia:
- Me desculpa, meu amor...
Amanda agarrou-se à ela com o mesmo ardor:
- Não, amor, me desculpa você... Eu não queria te magoar...
Mirella a olhou nos olhos ao afirmar:
- Eu sei.
Com a mesma doçura apaixonada com que a beijou, um segundo depois. Quando os lábios se separaram, Mirella falou:
- O erro foi meu.
Antes que Amanda pudesse interrompê-la, requisitou:
- Me escuta, por favor.
A concordância de Amanda se deu com um aceno de cabeça que Mirella achou irresistível. Beijou-a de novo, desta vez um leve roçar de lábios apenas, mas tão repleto de emoção e significado que fez com que os olhos de Amanda se iluminassem e que ela sorrisse sem nem perceber. 
Mirella sorriu de volta e soprou:
- Minha linda... Meu amor...
Antes de beijá-la outra vez. Só depois, finalmente conseguiu dizer:
- Eu fui insensível e estúpida com você hoje. Prometo que não vai se repetir, vou respeitar o seu tempo, eu...
Os dedos de Amanda pousaram com suavidade sobre os lábios de Mirella, impedindo-a de prosseguir:
- Mirella... Meu amor...
Segurou o rosto dela entre as mãos, olhou-a profundamente ao perguntar:
- Você mudou de ideia? Se arrependeu?
A rapidez, a segurança e a certeza com que Mirella assegurou:
- É claro que não.  
Anulou toda e qualquer dúvida que Amanda ainda pudesse ter. Foi a própria Mirella que ficou sem saber:
- Por quê?
E Amanda apressou-se em esclarecer:
- Hoje quando achei que poderia te perder, só de pensar em ficar sem você... Me fez perceber que você tem razão. 
A pausa que Amanda fez para respirar serviu para que Mirella assimilasse e antecipasse grande parte do que iria ouvir:
- Nós nos amamos, o resto não importa. Eu queria esperar porque no fundo, acho que não te mereço, você é tão... Tão mais do que eu, mas... Ah, foda-se! Por que não? Eu mereço, quero e posso ser feliz e ter você agora, então sim! Mil vezes sim! 
A gargalhada de Mirella ecoou por todo o apartamento. Antes que Amanda questionasse – como já sabia que ela iria fazer – do que estava rindo, enlaçou-a pela cintura e declarou:
- Que bom que você não aceitou logo de primeira, sabe por quê? Tudo que aconteceu, assim, como foi, exatamente desse jeito...
Lançou para Amanda um olhar que ela achou absolutamente deslumbrante antes de concluir:
- Não poderia ser mais perfeito.
Afirmação que selaram e comprovaram com milhares de beijos, carícias, orgasmos e juras de amor durante aquela noite inteira.


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Postado em 12 de novembro de 2018 às 18h.

Um comentário:

  1. Q fofo, q bom q elas se entenderam, na boa, torço mto por elas e q nenhum veneno vindo de Elaine o de qq um atrapalhe. Tanto Mirella qto Amanda merecem ser felizes.

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