segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CAPÍTULO 15 - WHEN YOU'RE GONE


MÚSICA QUE INSPIROU O CAPÍTULO:



Se Mirella dissesse que não se sentiu culpada ao ver Flora inconsolável e Paola preocupadíssima com a filha, estaria mentindo. Afinal, era em parte responsável por tudo aquilo. No entanto, não havia absolutamente arrependimento envolvido, a hipocrisia não era o seu forte, muito pelo contrário. Assumia os próprios atos e desejos a ponto de acolher o quanto tinha gostado de beijar Amanda. Queria repetir e ir além. 
Foi um alívio quando Paola se desculpou e disse que precisava dar atenção à filha. Aproveitou para concordar e informar que iria para casa, para deixá-las à sós. Entrou no carro decidida a fazer exatamente o que havia dito para a namorada, mas assim que virou a primeira esquina, percebeu que precisava verbalizar o que estava pensando e sentindo. Mais do que isso, dividir aquilo tudo com alguém. 
Enviou uma mensagem para Cris, foi imediatamente respondida, em questão de minutos estava sentada na sala da casa da amiga, sozinha com ela, pois Maria ainda estava dormindo. Relatou os últimos acontecimentos da maneira que lhe era de praxe: direta e sucinta. Cris ouviu calada, sem qualquer reação visível. Somente depois que Mirella terminou de falar e deixou escapar um longo e profundo suspiro ela falou:
- É, parece que desta vez você está enrolada de verdade.
Não teve tempo de dizer mais nada, pois Maria surgiu no alto da escada:
- Bom dia...
Espreguiçou-se, ainda lá em cima:
- Mirella! Eu não sabia que você tinha dormido aqui...
Cris riu, Mirella esclareceu:
- Eu não dormi.... Aqui.
Da mesma maneira entusiasmada, alegre e graciosa com que desceu as escadas, Maria lançou:
- Obrigada por suas convidadas tão maravilhosas! Fizeram a festa ser ainda mais especial!
Assim que ficou frente a frente com Mirella e realmente olhou para ela percebeu:
- O que houve?
Com a intenção de poupar a amiga, Cris fez um breve resumo do acontecido. Maria surpreendeu as duas sacudindo a cabeça em franca reprovação. 
- Não gostei da forma que falou, Cris. Cheia de julgamentos que não têm nada a ver com o amor.
De imediato, Cris a contestou:
- Amor?
A resposta de Maria foi uma risada cristalina e totalmente divertida. Ignorou o que considerava “um absurdo que não deveria ser levado em conta” de Cris, virou-se para Mirella:  
- Não dê ouvidos à ela. Você sabe que a Cris pode ser um pouco travadinha às vezes. Mas é um amor...
Passou os braços ao redor do pescoço de Cris e a beijou apaixonadamente. Soprou:
- O meu amor...
Depois que a soltou, se aproximou de Mirella, encostou o dedo no coração dela e conclui o raciocínio:
- Escuta o que as estrelas te dizem...
Antes de sumir em direção à cozinha.
Mirella ficou parada, buscando algum sentido naquilo. Cris tentou justificar:
- Não repara não. Ela e o Artur estão fazendo um curso de astrologia.
Só serviu para deixar Mirella mais confusa ainda:
- Mas o que isso tem a ver?
Cris se rendeu ao  principal aspecto de sua vida com Maria. A constante e deliciosa  presença do imprevisível, inesperado e incompreensível:
- Não faço ideia.
Rindo juntas, voltaram  para o sofá e para a conversa em suspenso. As duas se conheciam bem demais, eram anos de cumplicidade, amizade, segredos e verdades compartilhadas. Mirella tinha sido fundamental – um ombro amigo, um ouvido sempre disponível, uma companhia sincera e firme - durante o período em que Cris tinha sofrido, antes que ela e Maria conseguissem estipular qualquer tipo de relação além do amor que, na época, as separava ao invés de uni-las. Entretanto, não era uma questão de dívida, o que moveu Cris foi uma preocupação sincera com a felicidade de sua melhor amiga:
- Eu vou repetir o que te disse ontem: a Paola é maravilhosa. 
Fez uma breve pausa antes de ponderar, com a sensatez e a sinceridade que lhe eram características:
- Mas... Eu sei que você não está apaixonada, está com ela muito mais por conveniência do que qualquer outra coisa. Só que agora seu interesse por essa menina fez a situação ficar incômoda.
Mirella concordava com tudo, exceto a última frase. Corrigiu-a:
- Ela não é uma menina, é uma mulher. 
A intenção de Cris não era menosprezar Amanda. Não tinha nada contra ela, pelo contrário:
- Aliás, não tenho como deixar de elogiar: ela foi ótima!
Com o olhar perdido na deliciosa lembrança do que aquele único beijo trocado com Amanda a fizera sentir, Mirella sorriu, de forma quase libidinosa:
- Ótima é pouco...
Teria continuado com o pensamento nela, se Cris não a chamasse de volta à realidade:
- Mirella... Menos. Essa situação está longe de ser ideal.
Esperou, até obter de novo a atenção de Mirella, para prosseguir: 
- Eu mais do que ninguém sei que essas coisas fogem completamente ao nosso controle e é muito fácil agir de forma louca e irracional, mas...
Mirella apertou os olhos e não riu, gargalhou:
- Louca e irracional? Ah, essa é boa! Disso você entende bem. Continua, por favor.
Não tinham sido poucas as atitudes insanas e passionais que Cris cometera por Maria, e Mirella as conhecia todas. Baseou-se nisso para continuar:
- Entendo mesmo. E exatamente por isso eu posso te pedir: para e pensa só um pouquinho. Você está prestes a jogar fora um relacionamento de quase um ano com uma mulher muito legal e, por sinal, da sua idade, só porque está com tesão numa garota vinte anos mais nova. Vai trepar com ela e depois? Duvido que isso vá adiante.
Sem medir as palavras, com a ironia e a perspicácia que lhe eram peculiares, Mirella defendeu-se:
- Sim, porque pegar mulher na sinaleira realmente é a forma mais segura e certa de se começar um relacionamento sério.
Arrancou de Cris uma risada:
- Agora pegou pesado.
Ainda no tom leve, divertido e implicante que a alfinetada bem-humorada de Mirella havia instaurado, Cris replicou:
- É um pouquinho diferente de transar com a namorada da filha da sua namorada, não acha?
Foi a própria Mirella que trouxe seriedade de volta à conversa:
- Se acontecer algo entre a Amanda e eu vai ser mais do que apenas uma transa.   
A declaração seria impactante para qualquer outra pessoa. Nunca para Cris, que já tinha sentido aquilo na pele e sabia exatamente do que Mirella estava falando. Não era uma questão de lógica, muito menos de escolha. Ao menos não com relação ao sentimento em si. Já como lidar com isso, era uma decisão sim. Por isso voltou a questioná-la:
- O que você pretende fazer?
Indagação que fez Mirella racionalizar, de forma prática e objetiva. Parecia simples. Evitar e negar ou aceitar e agir. Mas havia muito mais, outras implicações. E mesmo se não houvesse, não fazia parte de sua tendência de vida precipitar-se, nem mesmo em questões cuja gravidade era mínima. Muito menos quando existiam outras pessoas envolvidas.
- Sinceramente? Eu não sei ainda.
Não seria movida por impulso que decidiria.


Sem ter mais porque ficar em Florianópolis, já que as aulas só começariam em Março, Amanda resolveu aproveitar a mordomia da casa dos pais. Elaine e Ricardo ficaram felicíssimos com a mudança de planos inesperada, fazendo com que o fato inédito de Amanda tê-los só para si se tornasse melhor ainda. 
Atendeu às duas primeiras ligações de vídeo de Flora, com o coração partido ao vê-la chorando e suplicando, mas se manteve firme. Na terceira ouviu calada as ofensas e os xingamentos que lhe foram dirigidos. A quarta não atendeu e depois a bloqueou no aplicativo.  Fez o mesmo em todas as redes sociais, apesar de sentir-se horrível com isso.
Não tentou entrar em contato com Marina e Débora, a última coisa que queria era atrapalhar a lua de mel das duas. Foram elas que a contactaram, três dias depois.
Contou tudo de forma sucinta. Ao contrário do que esperava, Débora se manteve estranhamente calada. Concordou com o que Marina disse:
- Ninguém melhor do que você pra saber da sua vida. 
Juliana só voltou de viagem uma semana depois, Amanda foi buscá-la com os pais no aeroporto de Navegantes e depois aproveitaram para almoçar na casa dos avós maternos em Blumenau. Ao vê-las, a primeira  coisa que a bisa - mãe da mãe de Elaine - perguntou foi:
- E os pretendentes?
Decepcionou-se ao saber que as bisnetas não tinham namorados:
- Duas moças tão lindas! Não entendo esses jovens de hoje...
Elaine, como sempre, as desculpou:
- A Juliana e a Amanda estão fazendo faculdade, vovó. Precisam terminar os estudos, só depois de formadas vão pensar em casamento.
Só serviu para que a senhora deixasse escapar num suspiro:
- Já vi que não vou conhecer meus tataranetos...
No mesmo dia, já em Rio do Sul, Amanda recebeu uma mensagem no whatsapp estranhíssima de Aline, sua vizinha de porta que estava terminando o doutorado e por isso não tinha férias: 
“vc conhece alguma Mirella?”
A pergunta tinha sido enviada quase duas horas atrás. Amanda estava tão ocupada ouvindo Juliana contar com detalhes tudo sobre os lugares que tinha visitado, as pessoas que tinha conhecido e abrindo os presentes que a irmã lhe trouxera que tinha esquecido completamente do celular. 
Respondeu o mais rápido possível: 
“conheço sim, pq?”
Para alívio de Amanda, Aline estava online e enviou um arquivo de voz:
- Ainda bem, porque como você não respondeu, dei seu número pra ela. Tudo bem, né?
A vontade de Amanda foi mandar um emoji de medo e espanto. Ao invés disso enviou uma carinha sorrindo e uma mãozinha com o polegar para cima. 
Tentou se conter, mas a curiosidade foi mais forte:
“de onde vcs se conhecem?”
Após três carinhas rindo, Aline gravou mais um áudio:
- Ela veio aqui no prédio, tava te procurando, não sabia o número do seu apê, tocou o interfone de todos, acho. 
A gravação terminou com uma risada. Amanda ficou parada, tentando processar a informação totalmente inesperada, durante o tempo ínfimo que a próxima mensagem demorou para entrar:
“falei q vc não tava em Floripa, ela pediu seu contato, te mandei msg mas vc não visualizou então achei q qualquer coisa vc bloqueava”
Tranquilizou-a, agradeceu e se despediu assim que conseguiu. Num misto de pressa e ansiedade, conferiu se tinha alguma mensagem de número desconhecido no whatsapp e decepcionou-se profundamente. Foi do nada, no maior de todos os insights, que teve a ideia de checar as ligações perdidas. Algo que para Amanda era quase surreal, pois ninguém de seu círculo social usava o celular como telefone, só recebia chamadas telefônicas de serviços de telemarketing ou dos pais. Ficou completamente perplexa ao encontrar, na lista de recentes, duas ligações de um número com ddd de Florianópolis. A última meia hora atrás. 
Óbvio que foi grande, quase irresistível a tentação de ligar. Tinha quase certeza de que era o número de Mirella, pois era coincidência demais. O que a conteve não foi orgulho, nem medo, apenas a consciência da realidade. Uma mulher mais velha e comprometida, uma vez mais. A experiência com Michelle tinha que ter servido para que aprendesse e agisse diferente. 
Durante os minutos que se seguiram, Amanda travou uma batalha angustiante e insolucionável consigo mesma. Pegou e largou o celular um número incontável de vezes, até que, na última, o aparelho começou a vibrar e tocar. Olhou para a tela e o que desejava se tornou realidade ao ver o número que era, só podia ser de Mirella.
- Alô?
A voz inconfundível do outro lado a fez estremecer:
- Amanda?
A mudez de Amanda foi interpretada erroneamente:
- Sou eu, Mirella. Tomei a liberdade de pegar o seu número com a sua vizinha.
Totalmente desconcertada, a única coisa que Amanda conseguiu dizer foi:
- Eu sei. 
Corrigiu-se rapidamente:
- Quer dizer... Ela me falou.
Mirella não fez rodeios, foi franca, direta e objetiva como sempre:
- Podemos nos encontrar? Preciso conversar com você pessoalmente.
Se dependesse da própria força de vontade, estaria perdida, aceitaria de imediato. Amanda tinha plena consciência disso. E de que tinha a desculpa perfeita para evitá-la:
- Estou na casa dos meus pais, em Rio do Sul. Vou ficar aqui até o fim de fevereiro. 
Não esperava que Mirella estivesse determinada a ponto de propor:
- Eu posso ir até aí. 
Obrigando-a a trazer à tona o mais indiscutível de todos os empecilhos:
- E a Paola?
A firmeza com que Amanda a questionou fez Mirella sorrir:
- É a segunda vez que você me pergunta isso. Desta vez eu vou te responder.
Pareceu durar uma vida. A pausa que Mirella fez antes de finalmente revelar:
- Eu e a Paola terminamos. 
Colocou o poder de escolha nas mãos dela, de um jeito que Amanda achou absolutamente encantador:
- Consigo chegar em Rio do Sul daqui a três horas.
Amanda não precisou pensar, respondeu sem hesitação nem dúvida alguma:
- Pode vir, estou te esperando. 

CONTINUA NA PRÓXIMA 4a feira...
OU... SÓ DEPENDE DE VOCÊ
INFORMAÇÕES ABAIXO:


- Qualquer leitor@ pode fazer a doação no valor de R$ 10,00 ou mais.

- A doação é voluntária, tod@s podem ler, participando ou não. Ou seja: não precisa doar para ler, pode ler sem doar.

- Como atingimos as 100 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 1.000,00 reais, as postagens agora serão duas vezes por semana, ou seja, teremos 2 capítulos por semana, às 2as e 4as feiras às 18h.


- Se atingirmos 150 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 1.500,00, serão postados três capítulos por semana.

200 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 2.000,00 = quatro capítulos por semana. 

250 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 2.500,00 = cinco capítulos por semana. 

300 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 3.000,00 = a história será postada inteira.



- As doações serão revertidas para os próximos projetos da autora (que são muitos!)

Para colaborar basta clicar no botão abaixo: 














Clique no botão acima para fazer a sua contribuição.



A AUTORA AGRADECE IMENSAMENTE 
A SUA COLABORAÇÃO!


OBS IMPORTANTE:   Se preferir fazer a sua contribuição por transferência bancária ou depósito na conta da autora, por favor entre em contato:

diedraroiz@gmail.com

https://www.instagram.com/diedraroiz

https://www.facebook.com/Diedraroiz

http://www.youtube.com/user/DiedraRoiz



RECAPITULANDO:
Postagens 2as e 4as feiras às 18h

Se atingirmos:
150 cotas = postagens 3x por semana
200 cotas = 4x por semana
250 cotas = 5x por semana
300 cotas = história postada na íntegra


Postado em 29 de outubro de 2018 às 18h.

2 comentários:

  1. Uia...
    Amanda pensando antes de agir?? Novidade na área.
    Cria e Maria Lua como sempre maravilhosas... mtas saudades desta dupla.
    Adorei a iniciativa de Mirella, essa é a diferença entre ser girina e sapa com rodagem, k k k k
    Agora vai e espero realmente q as duas se acertem.
    MARAVILHOSO...

    ResponderExcluir
  2. Só consigo pensar igual aquele meme:
    deus me dibre mas quem me dera

    Vamos começar pelo Casalinho, que delicia de vê-las, estava com saudades e esse comentário sobre o curso de astrologia foi o melhor, rss. Adorei! (:

    Ahh, e não é que a girina tá pensando antes de agir? Humn, humn... Mas não, não ela ainda não me desce.
    E que iniciativa, hein dona Mirella (como a Rê já comentou "diferença entre ser girina e sapa com rodagem...", hahaha).

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário, sua opinião é muito importante!