segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CAPÍTULO 13 - DESCOMPLICAR


MÚSICA QUE INSPIROU O CAPÍTULO:



Amanda lançou para Flora um sorriso que seria irresistível, se o efeito daquilo não estivesse diretamente ligado à ela e seus problemas de família:
- Caralho, Amanda! A Débora não vai poder entrar, o nome dela não tá na porta.
A estratégia de Amanda foi usar um tom muito doce e suave, quase de súplica:
- Então, né... Eu pensei que você podia...
Não funcionou, pois não tinha sido fácil para Flora pedir para a mãe pedir para Mirella para poder trazer, além da namorada, uma amiga. A última coisa que precisava e queria era dever mais um favor para a namorada da mãe que não lhe descia:
- Nem pensar! Já foi uma dificuldade trazer a Marina. 
Completamente alheia ao incômodo de Flora e querendo ajudar Débora a reconquistar Marina - no fundo achava que bastaria um empurrãozinho -, Amanda insistiu:
- A própria dona da casa disse que adora fazer novos amigos. É só falar com a sua mãe ou com a Mirella, ou então direto com a Maria ou com a Cris.
Surpreendeu-se quando Flora se manteve firme:
- Então fala você, porque eu não vou pedir.
À Amanda, só restou uma única alternativa:
- Tudo bem, peço eu então.


A primeira coisa que Marina falou ao vê-las voltarem sem nenhuma bebida foi:
- Ué, vocês não foram no bar?
Interpretou a mudez das duas de acordo com os próprios referenciais:
- Tá, eu não quero nem saber, só imagino!
Anunciou rindo maliciosamente:
- Vou buscar um drink. Quem sabe me dou bem também...
De imediato, Flora disse:
- Vou com você.
Deixando para Amanda tentar resolver sozinha a questão de colocar o nome de Débora na lista de convidados. Olhou em volta, procurando. Encontrou Maria no palco, cantando lindamente. Cris conversando numa roda, animadíssima. Nem sinal de Paola. Mirella estava parada perto da piscina, olhando fixamente para o copo que tinha na mão. Era a única acessível, não existia outra opção.
Aproximou-se devagar, tentando inutilmente afastar a tensão que a dominava sempre que chegava perto dela. Respirou fundo, ciente de que precisaria, pois o simples fato de saber que teria que encarar a mulher que fazia suas pernas bambearem e seu coração disparar a deixava sem ar. Tentou aparentar uma serenidade que absolutamente não tinha:
- Posso falar com você?
Um arrepio percorreu a espinha de Amanda, acompanhando o olhar de Mirella, subindo com uma lentidão quase enlouquecedora... Do copo para o corpo, passando pela boca, até encontrar os olhos dela.
- Claro.
A palavra deslizou, ágil e fácil, devolvendo sua vez de falar antes que Amanda estivesse preparada. A voz tremeu um pouco no começo, mas conseguiu recuperar uma aparente normalidade, mais rápido até do que esperava:
- Eu queria... Te pedir um favor. Não é nada demais. Teria como colocar o nome de uma outra amiga nossa – minha e da Flora – na entrada?
De maneira inteiramente inconsciente, mordeu o lábio inferior, se sentindo uma idiota completa pela explicação confusa e desnecessária da palavra “nossa” no final. Teve certeza de que teria o pedido negado pela enormidade de tempo que Mirella demorou para finalmente dizer:
- Vou falar com a Cris.
Preferiu não acreditar na leve decepção que pensou captar na voz dela, provavelmente era apenas produto de sua imaginação, ou pior, da própria vontade de algo mais. Um misto de alívio e tristeza a tomou quando o breve instante à sós com Mirella teve fim, com a chegada de Cris.
Havia um nítido desconforto em Mirella:
- Estávamos justamente falando de você.
A resposta de Cris foi indisfarçavelmente cética:
- Mesmo? 
Mirella não fez rodeios, também foi direta:
- Tem outra amiga das meninas que não está na lista de convidados, mas que também gostaria de vir.
Cris ignorou o sarcasmo com que aquilo foi dito, sabia que não era à ela que se dirigia. Sorriu para Amanda:
- Qual é o nome da sua amiga? 
Com a mesma simpatia com que, depois de passar a permissão de entrada por mensagem no whatsapp para o segurança na porta, completou:
- Não se esqueça de apresentar a Débora para a Maria. Ela vai adorar.
Amanda concordou e agradeceu uma vez mais antes de se afastar. 
Assim que se viu à sós com Mirella, Cris a questionou:
- Que porra foi essa?
Mirella negou, exatamente como já esperava:
- Não sei do que você está falando.
Conheciam-se bem demais. O suficiente para Cris afirmar:
- Sabe sim.
E depois transmitir apenas nas entrelinhas, sem proferir de forma explícita, tanto o que tinha visto quanto o que estava pensando:
- A Paola é maravilhosa.
Entretanto, Mirella não podia nem queria admitir a verdade nem para si mesma. Concordava com Cris, era exatamente nisso que se apegava:
- Sim, ela é.
O entendimento final se deu no último olhar que trocaram:
- Então presta atenção.
Para Mirella, a prova derradeira do quanto era visível, quase palpável, a atração que vinha tentando por todos os meios evitar e disfarçar. 


Marina sabia que tanto Amanda quanto Flora a estavam observando atentamente desde o momento em que haviam lhe comunicado que Débora estava vindo e chegaria a qualquer momento. Mas não foi por isso que se manteve  aparentemente tranquila. Sabia que não podia continuar evitando, mais cedo ou mais tarde se encontrariam e como tinham amigos e uma faculdade em comum, era necessário se acostumar com a presença dela.
Claro que isso era o que pensava. O que sentia era bem diferente, exatamente o oposto. Pois toda a firmeza que possuía e que a tinha permitido manter a decisão de se manter afastada e de não voltar com Débora durante quase duas semanas se encontrava embasada exatamente na ausência dela. Bastou vê-la – linda, tão absolutamente linda - para que todas as suas certezas caíssem por terra, ruíssem como um castelo de areia. 
Débora entrou naquela festa movida pela força de um furacão. Não precisou procurar muito, imediatamente a viu, cercada de milhares de pessoas que pareciam apagadas e sem cor se comparadas ao brilho de Marina. 
Os olhares se encontraram, Débora sorriu e Marina desviou o dela. A reação não a fez perder a determinação. Ao contrário, caminhou com a consciência de que aquela era a chance que precisava e não pretendia nem podia desperdiçá-la.
Assim que a cumprimentou, Marina se desculpou, se afastou e não voltou mais. Débora fez questão de deixar Amanda e Flora bem à vontade, a última coisa que queria era atrapalhar a noite das duas. Foi sozinha até o bar, pediu uma caipirinha e a bebeu bem devagar, enquanto tentava encontrar Marina. 
Óbvio que já desconfiava que ela não estaria sozinha, mas imaginar era uma coisa e vê-la com outra - não aos beijos, isso seria bem menos preocupante do que a conversa melosa e o olhar intenso que Marina dirigia à mulher que sorria para ela, absolutamente sedutora -  era completamente diferente. As lágrimas caíram antes que pudesse pensar em contê-las. Resistiu bravamente ao primeiro impulso que teve, de ir até lá e interrompê-las. Não tinha o menor direito de cobrar nada, na verdade merecia aquilo. O último pensamento gerou uma vontade desesperadora de desistir, ir embora sem dizer nem fazer nada. 
“Preciso ser forte”.
Foi essa certeza que a fez se obrigar a olhar de novo. A atenção de Marina se desviou, os olhos se fixaram em Débora, que sustentou aquele olhar, deixou que Marina visse a verdade, o amor que sentia por ela. Só depois se virou e se afastou, ainda com a esperança de que Marina viesse atrás.
Quando não aconteceu e finalmente percebeu que talvez fosse tarde demais, procurou um canto escuro, o lugar mais vazio e isolado que conseguiu encontrar, perto do muro depois da piscina e se permitiu chorar.
Estava soluçando, tão completamente entregue à própria dor, que não viu a mulher de cabelos castanho dourados se aproximar. Ela pousou a mão direita delicadamente sobre o ombro de Débora:
- Ei... Será que eu posso ajudar?
Débora se virou, pronta para se livrar da estranha intrometida, mas ao se deparar com um sorriso absolutamente límpido e enluarado, não foi capaz de rejeitar o carinho e a afinidade que encontrou no olhar dela. 
- A minha ex namorada...
A outra não permitiu que continuasse:
- Não precisa dizer mais nada.
Balançou a cabeça:
- Amar é foda! 
Com a mesma suavidade com que sorriu ao concluir:
- E também é maravilhoso demais.
Algo na estranha mulher fez Débora se expor, como não costumava fazer: 
- Eu quero ela de volta, mas não sei como.
A resposta pareceu surreal:
- Olha esse céu estrelado...
Tentou acompanhá-la mesmo assim. Olhou para cima, fazendo a outra rir e colocar o dedo no coração de Débora:
- Escuta o que as estrelas te dizem...


Marina se desculpou e se afastou da outra assim que perdeu Débora de vista. Sentiu-se péssima com aquilo, pois não estava absolutamente interessada, por mais que se esforçasse, tentasse e insistisse, só existia uma única mulher que queria.
Não precisou perguntar, bastou chegar perto de Amanda e Flora, as duas indagaram:
- Você viu a Débora?
Antes que pudesse negar, ouviu uma voz inconfundível vir do palco:
- Pra você, Marina.


Com o microfone tremendo tanto quanto as notas, Débora cantou:
“Porque você não é fácil
Eu também só complico
Não quero mais me explicar
Pra que sirvo eu se não for para amar”

Aquilo era algo inacreditável, pois Marina nunca, jamais a tinha visto fazer algo que não fizesse muito bem. Na verdade, Débora sofria de verdadeiro pânico do ridículo e, exatamente por isso, evitava fazer em público qualquer coisa sobre a qual não tivesse total domínio. Sequer jogava boliche com medo de dar vexame e agora estava lá, inteiramente exposta aos olhos de milhares de desconhecidos.
Caminhou, como se estivesse hipnotizada, abrindo caminho entre as pessoas, os olhos fixos na única que realmente a interessava.


Cris não entendeu muito bem o que estava acontecendo, mas se deixou puxar e ficou do lado do palco junto com Maria.
Quando a garota que nunca tinha visto - mas que soube quem era assim que Maria a chamou pelo nome - começou a cantar, compreendeu menos ainda:
- O que ela está fazendo?
A resposta pareceu incoerente demais, até mesmo para Maria:
- Tentando reconquistar a mulher que ama.
Falou o que ela e todos deviam estar pensando da exibição mais completamente dissonante que já tinha escutado na vida:
- E como é que um horror desses pode funcionar?
Com o olhar e o sorriso voltados para a garota no palco, Maria soprou:
- Ela é lindamente desafinada, não é?
Fazendo Cris mais uma vez se render à lógica enluarada que a tinha feito se apaixonar e que continuava sendo uma das maiores razões de amá-la.
- Você tem algo a ver com isso, não tem? Aposto que a ideia foi sua! Deve ter até escolhido a música...
A risada de Maria foi tão divertida e travessa quanto a maneira que piscou para Cris:
- Talvez...
Beijou-a de leve nos lábios antes de decidir:
- Eu vou lá ajudar a Débora.
Cris incentivou sorrindo e achando tudo belíssimo:
- Vai, minha Maria Lua, vai.


Débora tremeu, suou frio, gaguejou, mas não parou, nem mesmo quando, a cada erro, a consciência de que não cantava nada, era horrível, se tornou inegável, logo de início. A luz dos refletores não permitia que visse o rosto das pessoas - felizmente por um lado, infelizmente por outro, pois não tinha como ver Marina.
Estava quase desistindo quando a voz de Maria se juntou à dela, causando em Débora e em toda a plateia o mais profundo alívio. Cantaram juntas, uma do lado da outra:
E no desencontro dessa estrada
É que a gente sabe se encontrar
Me pegue, me alegre, me ame, devagar”

Foi nesse exato momento que a viu. Marina já estava bem perto do palco, quase debaixo dela. Quando os olhos se encontraram, Débora sorriu. Marina sorriu de volta, seus lábios se moveram acompanhando as estrofes seguintes:
“E na solidão da madrugada
Nosso amor só quer descomplicar
Não fale, me cale, me ame, sem pensar

Débora olhou para Maria, pedindo uma permissão que ela imediatamente compreendeu, pois sacudiu a cabeça, num sinal de “vai”. Débora encaixou o microfone no suporte e praticamente correu para a escada lateral. Marina foi ao encontro dela, a esperou no último degrau. Lançaram-se juntas, uma nos braços da outra, as bocas se buscando, provando e mostrando o amor que sentiam num beijo tão intenso e profundo que deixou as duas completamente sem ar.
Quando se separaram, apenas o suficiente para que pudessem respirar, Marina falou:
- Eu sei que eu disse que não ia voltar com você, mas...
Com um sorriso que Marina achou magnífico, Débora completou:
- Não vamos voltar, vamos começar. Tudo de novo, do início.
Beijaram-se de novo, com mais emoção ainda, tendo ao fundo a voz de Maria Lua:
Porque você não é fácil
Eu também só complico, não quero mais me explicar
Pra que sirvo eu se não for pra amar.”
(Descomplicar – Ana Carolina)


Amanda acordou no dia seguinte sem saber que horas eram. Não se deu ao trabalho de olhar para o lado, sabia que estava sozinha, pois Flora tinha avisado na véspera que sairia cedo para caminhar na Beira Mar com a mãe dela, era algo que sempre faziam na manhã do primeiro dia do ano. Foi convidada para acompanhá-las, mas a preguiça e o cansaço por terem chegado da festa de réveillon depois das quatro a fizeram recusar.
Espreguiçou-se, aproveitou para esticar um pouco mais o braço e pegar o celular na mesa de cabeceira ao lado da cama. Como já esperava, tinha uma mensagem fofa de Flora no whatsapp desejando bom dia, dizendo para Amanda se sentir em casa, comer algo e esperá-la, pois não ia demorar. Respondeu da mesma forma abreviada e repleta de emojis, levantou, se vestiu mas não ousou sair do quarto. Esperou, com o ouvido colado na porta, tentando ouvir os sons do apartamento primeiro. Só depois que o silêncio absoluto deixou claro que estava sozinha, ou melhor, que Mirella não estava, ousou atravessar o corredor e ir até a cozinha.
Encontrou café na garrafa térmica em cima da pia, como Flora tinha informado. Encheu uma xícara, olhou em volta, localizou o açúcar em cima do balcão e colocou duas colheres cheias dentro do líquido preto, tinha bebido o suficiente na véspera para seu organismo estar pedindo por glicose. Como não tinha colher alguma à vista, abriu a primeira gaveta à procura. Assustou-se - chegou a dar um pulo - quando, poucos metros atrás dela, Mirella disse:
- Está na gaveta do lado.


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Postado em 22 de outubro de 2018 às 18h.

Um comentário:

  1. A leveza das Marias transborda e atinge todos...Que bom revê-las, já tinha comentado isto no capitulo anterior mas não sei que fiz que o dito comentário desapareceu, por isso volto a referir e sublinhar que bom sentir outra vez a leveza do Amor das Marias kkkkk E essa leveza enluarada ajudou o recomeço de Marina e Debora vamos ver o que vai dar...Quanto à "inquietação" Amanda a coisa esta prometendo confusão ...Mirella não esta indeferente!!!...
    Aguardemos...kkkk
    Beijos ;)

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