segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CAPÍTULO 12 - O VIVO


MÚSICA QUE INSPIROU O CAPÍTULO:



Amanda não esperou mais de cinco minutos na portaria, mas a ansiedade fez parecer com que horas tivessem se passado antes do carro afinal parar na sua frente, o vidro da janela de trás descendo para Flora acenar com um sorriso absolutamente ofuscante.
Antes que pudesse completar os passos que a separavam do veículo, a porta se abriu e a namorada se moveu, dando espaço para Amanda entrar e se sentar ao lado dela, que a recebeu com um beijo rápido - não passou de em leve roçar de lábios. Cumprimentou as duas mulheres na frente de um jeito que soou quase formal:
- Boa noite.
Mirella respondeu primeiro. Um simples, seco e impessoal:
- Olá.
Antes de sair com o carro. Paola virou-se para trás e sorriu, simpática como sempre:
- Oi, Amanda, tudo bem? Como foi na casa dos seus pais?
Retribuiu o sorriso, o tom e a descontração:
- Foi ótimo. Eu estava com saudade e eles também.
Paola sacudiu a cabeça em concordância:
- Imagino. Mas que bom que você veio pro ano novo, as festas da Cris e da Maria são imperdíveis. 
Antes de virar-se para a namorada:
- Não é, Mi?
O uso do apelido carinhoso, ironicamente o mesmo que Laura usava para se referir à Michelle, fez com que Amanda mergulhasse num estado quase calamitoso de culpa, pavor e arrependimento. Não pelo passado, mas pela dolorosa consciência de que estava perigosamente próxima de desejar revivê-lo no presente. Jurou para si mesma que não aconteceria.
“Não dessa vez.”
Repetiu mentalmente enquanto, de forma involuntária, como que dotado de vontade própria, seu olhar buscava e encontrava o de Mirella no espelho retrovisor interno. Foi com os olhos nos de Amanda que Mirella falou:
- Com certeza.
Logo depois, voltou a atenção de novo para a frente. 
Flora conhecia Amanda o suficiente para perceber o quanto ela estava tensa. Apertou a mão da namorada e falou baixinho, para que somente ela a ouvisse:
- Tudo bem? Sua mão tá super gelada.
Amanda sussurrou de volta:
- Tá frio.
Flora apertou os olhos e avaliou a namorada. À Amanda restou esfregar os braços numa mímica de “tentando se esquentar” e desejar que ela acreditasse, exatamente como aconteceu:
- Ei, tem como diminuir o ar? Tem gente congelando aqui atrás...
Enquanto Paola atendia ao pedido bem-humorado da filha, Amanda tentou resistir. Lutou contra si mesma e falhou miseravelmente. Os olhos voltaram para o retrovisor como que atraídos por um imã. Para sua mais profunda e confusa surpresa, não olhou para o espelho sozinha. Só que, desta vez, foi ela que desviou o olhar do de Mirella. Um segundo antes de Flora soprar em seu ouvido:
- Melhor?
A única coisa que Amanda conseguiu dizer foi:
- Ahan.
Sem ser capaz de evitar o arrepio que lhe subiu pela espinha e a fez estremecer inteira, levando-a a se sentir a pessoa mais vil de todo o universo. 


Quando chegaram na festa, Marina já estava lá. Amanda tinha feito questão de convidá-la, para apoiar a amiga - pois não estava sendo fácil, ela estava sofrendo por Débora ainda -, mas também para ter a companhia da única em quem realmente confiava e que sabia da atração que sentia por Mirella.
“A namorada da mãe da minha namorada”. – corrigiu-se mentalmente, buscando naquilo um empecilho que absolutamente não a impedia depois de ter se apaixonado e ficado com a mulher da melhor amiga da mãe, quase sua tia.
Com um copo na mão, conversando com uma loira que estava visivelmente interessada nela, Marina as recebeu com a alegria e a empolgação de sempre. Cumprimentou Amanda e Flora, a última apresentou Paola e Mirella para a convidada cujo nome tinham colocado de última hora na lista. Com a simpatia que lhe era característica, Marina agradeceu antes de se virar para a loira:
- Desculpa, esqueci seu nome...
Ela até tentou disfarçar, mas a decepção e o constrangimento estavam impressos em sua voz quando disse:
- Larissa.
Depois de todas se apresentarem para a mulher que não tirava os olhos de Marina, Mirella disse:
- Não estou vendo nem a Cris nem a Maria, devem estar por aí, uma hora a gente esbarra com elas e eu apresento vocês.
Marina tentou falar baixo, para que apenas Amanda e Flora ouvissem:
- Quem?
Mas a música que estava tocando naquele momento parou, fazendo com que a pergunta fosse perfeitamente audível. Mirella olhou para as três seriíssima. Paola esclareceu rindo:
- As donas da festa.
Flora completou:
- Elas são ótimas! Vocês vão amar as duas, nem parecem ter a idade que têm!
Desta vez, foi Paola quem olhou feio para a filha. Mirella riu, com a mesma ironia com que disse:
- Bom, crianças, nós vamos circular. Divirtam-se!
Pegou Paola pela mão e a guiou para longe da filha e das amigas. Amanda as teria acompanhado com o olhar, até perdê-las de vista, se Marina não a impedisse:
- Vou no bar pegar mais bebida. Amanda, vem comigo?
Na mesma hora, Amanda assentiu. Virou-se para Flora, executando seu papel de namorada gentil:
- O que você quer beber?
Um sorriso totalmente apaixonado acompanhou a resposta:
- Cerveja.
Beijaram-se de leve nos lábios antes de Amanda olhar de Marina para a mulher ao lado dela e depois para Marina de novo. Desistindo de esperar uma iniciativa que, pelo visto, a amiga absolutamente não teria, acabou perguntando ela mesma para a desconhecida:
- E você, vai querer o quê?
Olhando fixamente para Marina, a loira foi direta:
- Parece que o que eu quero não está disponível. 
Perante a mudez e a imobilidade de Marina, ela se virou e se afastou, deixando Amanda perplexa:
- O que foi isso?
Não houve hesitação alguma por parte de Marina:
- Ela não faz o meu tipo.
Flora e Amanda se entreolharam, mas não disseram nada. Estavam pensando a mesma coisa, mas jamais tocariam no “assunto Débora” na frente de Marina. Quem interrompeu o silêncio foi Flora:
- Eu vou no banheiro, você pega a minha cerveja?
A concordância de Amanda se deu com um aceno de cabeça antes de ir atrás de Marina, na direção oposta à que a namorada seguiu. 
O bar estava cheio, levaram alguns minutos para finalmente conseguirem se encostar no balcão para pedirem as bebidas. Uma voz macia, suave e convidativa vinda do palco fez com que se virassem juntas para a mulher sorridente e incrivelmente fascinante, de olhar brilhante, cabelos castanhos dourados, saia longa colorida e blusinha branca que revelava várias tatuagens - algumas inteiras e outras cuja visão parcial deixavam só na vontade de mais - que segurava o microfone:
- Vou cantar uma música que eu amo - a minha talentosíssima amiga Renata Prado a compôs especialmente para o livro “O Suave tom do abismo” - se chama “O Vivo”.
Com uma beleza ainda mais enfeitiçante e sedutora, começou a cantar, arrancando das duas sons involuntários da mais profunda aprovação, interesse e empolgação:
- Noooossaaaa!
- Uow!
Entreolharam-se rindo, num entendimento sem palavras. Amanda concluiu:
- Como canta!
Num tom que não deixava dúvidas do verdadeiro significado do elogio para ninguém, muito menos para a perspicácia da mulher - elegantíssima do outro lado do bar - que entregou a cerveja e os drinks que as duas tinham pedido com um sorriso espirituoso:
- É. Canta.
Não precisaria de mais para que Amanda e Marina soubessem quem ela era. Percepção tardia que a chegada de Mirella e Paola:
- Cris! Estávamos te procurando! 
Além de comprovar, piorou:
A Cris é uma de nossas anfitriãs. A mulher dela, a Maria, é aquela que está cantando ali no palco. A Amanda é a namorada da Flora e essa é a amiga delas, Marina.
Marina e Amanda voltaram a se entreolhar e, antes que pudessem dizer ou fazer qualquer coisa para consertar a gafe, Cris olhou para elas e riu. Parecia estar - e estava - se divertindo muito com o constrangimento das duas:
- Muito prazer. 
Depois, voltou toda a sua atenção para a mulher por quem as duas estavam babando segundo antes e declarou de forma assumidamente apaixonada:
- Também não me canso de olhar.


Depois de mais duas músicas, Maria desceu do palco e foi ao encontro delas. Na verdade, direto para os braços e lábios de Cris, que correspondeu, beijando-a com a mesma intensidade. Somente as bocas se separaram, os corpos permaneceram colados, foi com os olhos nos de Maria que Cris falou:
- Maravilhosa como sempre, meu amor.
Maria riu e voltou a beijá-la, desta vez um breve e suave roçar de lábios. Só então se deu conta das outras pessoas ao redor. Cumprimentou as que já conhecia - Mirella, Paola e Flora - e foi apresentada para Amanda e Marina. Recebeu-as com a mais calorosa e sincera alegria:
- Que bom que vocês vieram! Amo fazer novos amigos!
Cris riu, implicando com Maria:
- Então hoje é o seu dia!
E explicou para as outras:
- Eu não conheço nem a metade das pessoas que estão aqui.
A resposta de Maria foi passar os braços ao redor do pescoço de Cris:
- Isso não é ótimo?
Com as mãos na cintura e os olhos presos aos de Maria, Cris sorriu e implicou:
- Divino!
A sintonia e o entendimento entre as duas era visível. Provavelmente teriam esquecido de todo o resto de novo, se um moreno barbudo e de coque não chamasse Maria, que após um último beijo, se soltou de Cris:
- Vou lá ver o que o Artur quer.
Logo depois, Cris também pediu licença e saiu em direção à cozinha. Foi Flora que escutou e avisou para Amanda:
- Seu celular está tocando.
A felicidade de Amanda não poderia ser maior quando viu quem era. Atendeu à chamada em vídeo da irmã gêmea no whatsapp sem pensar duas vezes:
- Tá frio aí, maninha?
Apenas com os olhos de fora, Juliana tirou o cachecol de cima do nariz e da boca para responder à altura:
- Não, me converti ao Islamismo!
Antes que terminasse a frase, Flora e Marina enfiaram as cabeças por cima dos ombros de Amanda, uma de cada lado, para verem Juliana e serem vistas por ela no vídeo:
- Oi, Ju!
- E aí?
- Tá gostando de New York?
Impossível para Mirella e Paola evitarem, as duas franziram o rosto com a gritaria intercalada de risadas que se seguiu. A única frase que conseguiram entender foi a última, vinda da tela do celular:
- Meu nariz tá congelado, but I’m in the fucking Times Square!
Depois de mais gritos, de todas falarem ao mesmo tempo e se desejarem feliz ano novo mil vezes, se despediram e desligaram. 
Assim que Amanda o guardou na bolsa, o aparelho voltou a tocar. Ela justificou antes de se afastar para atender:
- É a Débora.
Mirella olhou para Paola, que olhou para Flora que, em consideração à Marina, não disse nem fez nada para que as duas entendessem. Sem ter como nem porque disfarçar ou evitar o próprio incômodo, Marina deu a explicação que as duas esperavam:
- A Débora é minha ex.
Informação mais que suficiente para gerar identificação emocional. Paola deixou escapar uma interjeição que mesclava compreensão, pesar e empatia:
- Ah...
E Mirella sacudiu a cabeça em concordância, mas nada disse. Foi Amanda quem quebrou o silêncio que se estabeleceu, quando retornou, um pouco depois:
- Vou pegar uma bebida. Flora, você vem comigo?
Flora até estranhou o tom que ela usou, mas concordou sem discutir. Não esperou chegarem no bar, perguntou assim que ficaram longe o bastante para não serem ouvidas:
- Aconteceu alguma coisa?
Amanda não parou de caminhar, continuou puxando Flora pela mão enquanto respondia:
- A Débora tá desesperada atrás da Marina, disse que tá ligando direto, chegou a ir na casa dela, mas a Marina não atendeu.
Depois de mais de dez dias daquilo, Flora não foi solidária, muito menos tolerante:
- A Marina não quer falar com ela, né? Só a Débora que não entendeu ainda.
Amanda parou e olhou para Flora de um jeito que na mesma hora a fez perceber:
- Ah, não, Amanda... Não me diz que você falou pra Débora que a Marina tá aqui.
Prevendo a reação dela, Amanda falou o mais rápido possível:
- Ela já tá vindo.

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Postado em 17 de outubro de 2018 às 18h.

4 comentários:

  1. Adorei... k k k
    Cris zoando Amanda e Marina pela babação em cima de Maria foi sensacional... eu vi o constrangimento das duas e ri mto.
    Marina educada e sensível como só ela sabe ser, deu pena da Larissa.
    Débora em marcação cerrada e marina fugindo... sei... foge de q?
    Tem hrs q Flora não sabe q ficar de boca fechada é a melhor coisa a ser feita? Marina e Débora são família para Amanda e de família só a gente pode falar? Flora pegou uma aversão mto perigosa ao casal.
    Well... troca de olhares pelo retrovisor. Hummm, mto significativo isso. Mais uma na mira de Amanda, tadinha da Flora, nem sabe ainda mas já dançou.
    Mto bom Diedra...

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  2. Que saudade que eu tava de Cris e Maria Lua 😍😍

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  3. Adorei o capítulo, muita maestria como sempre na hora da escrita, hein Diedra. Mas o melhor, foi ler no comentário da Rê meu próprio pensamento "tadinha da Flora, nem sabe ainda mas já dançou".

    Ahhh, e Amanda como sempre fazendo dessas sapatices, aai ai... Isso vai dar muita merda!

    Marina ja tinha meu respeito e minha admiração, só tá aumentando ainda mais. Mas claro, que tinha que ter uma amiga como a Amanda pra falar pra Debora onde ela está...

    (De novo) aai ai aii, Amanda, eu sofaz merda!

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  4. Que bom foi voltar ao mundo das Marias, a leveza do amor delas sentiu-se outra vez e espalhou-se por todas...O aparecimento no próximo capítulo da Debora na festa não promete tanta leveza...kkkkk Assim como não prometem os ímpetos lascivos de Amanda, quem a segura???... kkkk
    Beijos ;)

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