segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CAPÍTULO 09 - HUMAN


MÚSICA QUE INSPIROU O CAPÍTULO:



No dia seguinte pela manhã, Amanda chegou exausta na universidade. Quase não tinha dormido e sabia que Flora havia ficado chateada por ela ter ido para casa logo após o jantar. Para completar, quando entrou na cantina deparou-se com sua nova realidade: Débora e Bruno sentados numa mesa e Marina sozinha em outra, do lado oposto à que os dois estavam. 
Ficou parada durante uma fração de segundo tentando decidir como agir, acabou optando por virar e sair dali para evitar qualquer tipo de atrito. Tarde demais, já tinha sido vista. Acenou de volta para Bruno, forçando um sorriso. Fez um sinal avisando que ia pegar um café e entrou na fila. Quando finalmente se aproximou com o copo fumegante em uma das mãos e um saquinho de açúcar e uma colher de plástico na outra, Bruno e Débora estavam se levantando:
- A gente se vê na aula.
Concordou com um aceno de cabeça, ia ficar ali mesmo se Marina não a chamasse. Caminhou até ela e já sentou se justificando:
- Desculpa não ter vindo direto pra cá, mas como ontem você disse que precisava ficar sozinha, eu não sabia se...
Marina não a deixou completar:
- Nem esquenta com isso. 
Mas Amanda sabia perfeitamente que os óculos escuros que ela estava usando certamente escondiam um par de olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Conhecia Marina bem demais, o suficiente para se preocupar e para ser cuidadosa ao perguntar:
- Como você está?
Teve mais receptividade do que na véspera: 
- Vou sobreviver.
Impossível não sentir empatia pela ironia sarcástica, puramente defensiva, que tão bem conhecia. Tinha perdido a conta de quantas vezes dissera a mesma frase com relação ao fim de seu namoro com Michelle. A diferença era que realmente acreditava não só no que Marina sentia por Débora, mas também no fato deste amor ser correspondido. Certeza essa que a compeliu a dizer:
- Você não vai fazer nada? Vai aceitar? Vai deixar assim?
Havia na voz de Marina um ressentimento inequívoco:
- Foi ela que terminou comigo.
Apesar de compreender, era outro o papel que lhe cabia:
- Eu sei, mas não foi a primeira vez e vocês sempre...
Falhou miseravelmente no intento de acalmá-la, pois Marina a cortou com mais raiva ainda: 
- Mas foi a última, pode ter certeza.
Nem assim desistiu:
- A Débora sempre foi ciumenta, mas você...
Uma vez mais, Marina colocou para fora a fúria que estava sentindo:
- Ciúme nada mais é do que insegurança e falta de respeito que, aliás, eu aturei durante muito tempo. Tempo demais, se você quer saber.
Amanda ouviu o desabafo até o fim. Só depois falou o que teria dito se não tivesse sido interrompida:
- Você e a Débora se amam. 
Fez com que Marina parasse, por um instante ínfimo. Logo depois, ela balançou a cabeça de um lado para o outro devagar, num movimento mínimo, antes de afinal retrucar:
- Diz isso pra sua amiga. Ou melhor, não diz nada, porque não adianta mais. 
Abaixou a cabeça, fez uma pausa antes de concluir, num tom baixo, duro e firme, que deixou claro para Amanda que ela não estava nem falando da boca para fora, muito menos de brincadeira:
- Agora quem não quer sou eu.
Só lhe restou desejar que Débora não se arrependesse.
Nesse exato momento, Flora entrou na cantina, obviamente à procura de Amanda, que ergueu o braço para que ela a visse. 
Marina teria levantado, para deixa-las mais à vontade, mas Amanda pediu:
- Por favor, fica.
A única coisa que Marina teve tempo de dizer foi:
- Problemas no paraíso?
Menos de um segundo depois, Flora já estava ao lado de Amanda. Não a beijou como de costume, a primeira coisa que fez foi perguntar:
- Tá tudo bem?
Com uma serenidade que absolutamente não tinha, Amanda sorriu e garantiu:
- Claro que sim, por que não estaria?
Flora continuou como se Marina não estivesse ali:
- Ontem você saiu lá de casa quase correndo e não respondeu mais minhas mensagens.
Não houve hesitação alguma por parte de Amanda, ela mentiu:
- Eu estava cansada e com um pouco de dor de cabeça, só isso.
Sem nem tentar disfarçar, Flora deixou escapar um suspiro de puro alívio. 
- Fiquei preocupada.
Com as mãos de Flora entre as dela, Amanda continuou sorrindo:
- Sem nenhum motivo.
Só então Flora pareceu se dar conta de que tinham companhia:
- Desculpa, Marina... 
Ao contrário de Amanda, Marina olhou para Flora seriíssima:
- Tudo bem. 
Depois de um beijo rápido nos lábios de Amanda, Flora se despediu e as deixou novamente sozinhas. 
- Quer conversar sobre isso?
Oferta que Amanda aceitou sem pensar duas vezes, pois se havia alguém em quem confiava, com quem poderia se abrir sem medo de ser julgada e que a escutaria sem falsos moralismos, esse alguém era Marina.


Marina a ouviu inteiramente calada, até o fim. Quando Amanda terminou foi direta e absolutamente sincera, exatamente como Amanda sabia que ela seria:
- Você ficou com tesão na namorada da mãe da sua namorada. E daí? Não vejo problema nisso. A não ser que...
Deixou em suspenso, para que Amanda perguntasse:
- Que o quê?
Levantou os óculos escuros, expondo as olheiras profundas e os olhos vermelhos e inchados, a própria verdade para que Amanda também o fizesse:
- É platônico? Ou você foi correspondida?
Não existia nada de material ou palpável na maneira que o olhar de Mirella tinha buscado, encontrado e se fixado no dela antes, durante e depois do jantar.
- Não sei. Provavelmente é só imaginação minha.
Marina riu:
- Não acho que você tenha tanta imaginação assim.
Completou de forma igualmente bem-humorada:
- Minha amiga, a menos que você pretenda investir nesse negócio de separar casais de lésbicas de meia idade, o melhor que você tem a fazer é ignorar essa tal de Mirella.
Foi a vez de Amanda rir:
- Como se fosse possível.
A incredulidade de Marina era absoluta e completamente visível:
- Ai, Amanda, como assim?
Não foi difícil para Amanda buscar uma comparação que para Marina fosse compreensível:
Deixou a frase em suspenso durante alguns segundos para enfatizar:
- Não é nada perto da Mirella.
A interjeição que Marina deixou escapar expressou sua perplexidade. Ficou pensando, levou um tempo para finalmente chegar a uma conclusão plausível:
- Então só vejo duas saídas: ou termina com a Flora ou foge da mais nova quarentona que você acha tão irresistível.
Para Amanda, a primeira hipótese estava totalmente fora de questão. O que significava que só lhe restava uma única opção: evitar Mirella.


O final do semestre mergulhou Amanda num turbilhão de estudo, provas, entregas de trabalhos e preparativos para ir passar o Natal com a família em Rio do Sul, o que lhe rendeu uma série de desculpas perfeitas para não voltar mais na casa de Flora. 
Apesar de Mirella não morar com Paola, impossível saber, muito menos perguntar se ela estaria e a última coisa que faria era arriscar. Assim, o mês passou rápido, de maneira segura e eficaz.
No último dia de aula, véspera de ir para a casa dos pais, foi com Flora numa festa de fim de ano de um pessoal que nenhuma das duas conhecia.
Assim que entraram viram Bruno e Débora dançando enlouquecidos, de um jeito que Amanda conhecia muito bem. Algo que para Bruno era comum, ele sempre fazia isso nas festas, mas Débora tomar qualquer coisa que a deixasse fora de si era inédito e estranho, no mínimo. Bastou olhar para o lado e ver Marina dançando e se esfregando não em uma, mas em duas meninas para que o motivo de Débora se tornasse claríssimo. 
O julgamento de Flora foi ligeiro:
- É, parece que Marina voltou a ser Marina.
Bem como a rapidez com que Amanda defendeu a amiga:
- Muito longe disso.
Deixou escapar um suspiro antes de completar:
- Ela está fazendo de tudo pra esquecer a Débora, só que não está conseguindo.
Como que para comprovar o que Amanda tinha dito, Marina esticou o pescoço e olhou - por cima da cabeça de uma das garotas com quem estava – diretamente para Débora, que também a estava observando. Quando os olhares se encontraram, Marina imediatamente desviou o dela e se virou de costas para Débora, que fez o mesmo.
- São duas cabeças duras. 
A sentença final de Amanda levou Flora a exclamar:
- Que merda!
E fez Amanda dizer:
- Quer saber? Elas que percam o tempo delas, porque eu não vou perder o meu. 
Desde o início, a intenção de Amanda não era demorar, pois queria aproveitar a noite com a namorada já que ficariam mais de duas semanas se verem. Por isso não foi nenhum sacrifício sugerir:
- Vamos pra minha casa?
O que não esperava era a contra proposta de Flora:
- Vamos pra minha?
Deu a primeira desculpa que lhe veio à cabeça:
- Amanhã vou sair cedo.
Mas Flora estava determinada, na verdade cansada de dormir na casa de Amanda sempre e já tinha pensado em como rebater todo e qualquer argumento:
- Você não disse que as suas malas já tão prontas? Então? A gente pega elas agora e te levo direto na rodoviária amanhã de manhã.
Com um sorriso que sabia ser irresistível, Amanda enlaçou Flora pela cintura e a puxou para si:
- A gente fica muito mais à vontade na minha casa. 
Aproximou a boca do ouvido dela e soprou, no mesmo tom provocante:
- Você pode até gritar se quiser...
Flora entrou no joguinho de sedução imediatamente:
- Vai me fazer gritar?
Apesar de esperada e nada original, a resposta continha uma promessa que, pelo tom que foi proferida, sabia que Amanda iria cumprir:
- De prazer...
A primeira reação de Flora foi se arrepiar inteira. A segunda, mostrar que não pretendia se deixar vencer tão facilmente:
- Minha mãe não está em casa, foi dormir na Mirella.
Argumento derradeiro, que permitiu que Amanda cedesse.



Débora tinha plena convicção de que não queria nem precisava usar nada que a fizesse perder a cabeça... Até aquela festa.
Ver Marina com outras não era novidade, apenas o habitual e o que já esperava dela. Durante o mês depois do término a tinha visto desfilar com várias, inúmeras mulheres. O que só deixava claro o quanto sua escolha havia sido acertada, uma vez que a última coisa que desejava era ser um empecilho, o motivo pelo qual ela não fazia o que realmente desejava. Amava Marina e queria que ela fosse feliz. Mesmo se a felicidade dela consistisse em estarem afastadas, como parecia ser de fato.
Mas naquela noite em particular sentia-se inteiramente fraca e vulnerável, estava cansada, exausta de sofrer e remoer a distância e a ausência dela.
Ao ver Marina começar a dançar e a beijar duas garotas, virou-se para Bruno e exigiu:
- Quero ficar muito louca hoje.
A despeito da total perplexidade perante um comportamento tão inesperado, sem questioná-la, o amigo a atendeu. 
Engoliu o comprimido junto com a água que Bruno ofereceu como se não existisse mais nada. No entanto, contrário a tudo que esperava, não se viu livre de seus problemas, frustrações e dificuldades. Estes cresceram vertiginosamente dentro dela, como uma praga que se alastrava mais e mais cada vez que seu olhar buscava e encontrava a presença brilhante, absolutamente narcotizante e magnífica de Marina.
Quando ela, além de desviar o olhar, virou-se de costas, numa negação total de qualquer contato ou conexão, Débora não foi mais capaz de se conter. 
Pareceu vir de muito longe, a voz de Bruno chamando-a:
- Deb? Deb? Onde você vai?
Atravessou a pista e caminhou diretamente para Marina, atendendo ao que cada célula de seu corpo desejava e clamava. Parou na frente dela, que a olhou inteiramente imóvel e muda, como se não acreditasse.
- Marina...
Foi só o que conseguiu dizer antes da imobilidade abandonar Marina, que se virou para a garota à sua frente e a beijou acintosamente. 
Mesmo se Débora conseguisse pensar em deter a própria mão, não o faria. Pegou Marina pelo braço e a puxou, arrancando-a da outra menina.
- Você está louca?
A pergunta soou tão agressiva quanto o safanão com que Marina se soltou. De uma maneira inteiramente entorpecida, Débora riu:
- Estou.
Depois, se virou e foi em direção à porta, parecendo perdida e inteiramente fora de si. Marina olhou em volta, procurando Bruno, Amanda ou alguma outra pessoa conhecida, mas não encontrou ninguém. Sem ser capaz de ignorar a própria preocupação, deixou escapar um enfurecido:
- Merda!
E correu atrás de Débora, pois acima de qualquer raiva, mágoa ou rancor estava o imenso amor que sentia. Jamais se perdoaria se acontecesse algo com ela. 


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Postado em 08 de outubro de 2018 às 18h.

2 comentários:

  1. Well, comecemos por Marina e Débora, essa carta tava marcada, mas não achei q fosse ser Débora a pular fora... k k k Tu sempre surpreendendo né Di?
    Marina sempre correu atras dela, mas e agora? Vai resistir por mto tempo?? Parece q no pq como uma boa girina Débora vai fazer merda e super Marina vai estar a postos... k k k
    Assim até eu me apaixono... Mirella é mais q Cate Blanchet em 8 mulheres e um segredo?? Melhor q o macacão verde com um decote FENOMENAL?? Me apresenta please. Q tipo de amiga tu é q deixa uma deusa destas pra Amanda girina e não favorece as amigas?? Briguei... não quero mais papo contigo. aff...
    Adoro os conselhos de Marina... são tipo uma galão de gasolina e uma caixa de fósforos.
    To amando essa zorra toda.
    k k k

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  2. Cabrita, vc achou q a Marina ia terminar, né? Sqn... kkk
    Segundo a Amanda, a Murella é melhor que a Cate, mas segundo a Amanda, né? Pq convenhamos que igual ou melhor que Cate... Só a Wind! Kkkk
    Vou falar pra Marina abrir um site de conselhos sentimentais! Hahaha
    Se bem que talvez ela ganhe mais com uma barraca do beijo... rsrsrs

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