segunda-feira, 3 de setembro de 2018

CAPÍTULO 22 - AMOR MEU GRANDE AMOR - ÚLTIMO CAPÍTULO


MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:






Naquele sábado, Amanda estranhou o fato inédito de acordar sozinha na cama. Levantou de pijama mesmo, não precisou procurar muito, encontrou Mirella na cozinha, com quase tudo pronto para o churrasco que fariam no almoço. Protestou:
- Por que você não me acordou?
Segurando-a pela cintura, Mirella puxou Amanda para si e a beijou na boca antes de explicar:
- Você estava dormindo tão profundamente, fiquei com pena e achei melhor te deixar descansar.
Pura verdade. Principalmente porque fazia mais de uma semana - desde a visita de Juliana para ser mais exata - que ela vinha sofrendo de insônia.
Depois de conferir a hora, Amanda se serviu de café e praticamente engoliu um pedaço de pão com manteiga:
- Vou tomar um banho e me vestir porque nossas convidadas já devem estar chegando.
Mirella concordou com uma palmada ao mesmo tempo carinhosa e provocante na bunda de Amanda:
- Vai, minha gostosa. Aqui está tudo sob controle.


Exatamente como previa, quando Amanda voltou para a sala, Marina e Débora já haviam chegado. Maria e Cris estavam, como sempre, atrasadas.
Enquanto colocava as cervejas que as amigas tinham trazido no freezer, aproveitou para perguntar:
- A Ju convidou vocês pro casamento?
Foi Débora quem respondeu:
- Sim.
Deixando claro que preferia não falar sobre isso. Mas Amanda insistiu:
- E?
Obrigando-a a dar de ombros e dizer:
- Ué... Nós vamos.
Marina terminou a tarefa que Mirella lhe incumbira - arrumar algumas azeitonas, rodelas de palmito, pepinos e ovos de codorna em conserva num pratinho -, trouxe os petiscos até elas e se meteu na conversa:
- Mas só por você.
Indisfarçável o desânimo na voz de Amanda:
- E eu só vou pela minha irmã.
Inteiramente alheia ao assunto, Mirella abriu a garrafa de cerveja que estava segurando e propôs:
- Vamos iniciar os trabalhos?
Marina estendeu o copo dela imediatamente, Débora um pouco depois. Amanda permaneceu sentada, perdida em seus funestos pensamentos. Só voltou à realidade quando Mirella a chamou:
- Amor...
Olhou para ela forçando um sorriso. Obviamente, perante a perspicácia de Mirella, não funcionou:
- Que tal esquecer a sua família um pouco e se divertir?
Antes que pudesse obter qualquer resposta, Mirella encheu o copo de Amanda, o único que continuava vazio. Marina levantou o dela:
- À felicidade lésbica!
Riram, brindaram, beberam e, logo depois, o interfone tocou. Mirella atendeu, pediu para que o porteiro deixasse Maria e Cris subirem e Amanda correu para abrir a porta.
- Olá pessoas lindas e maravilhosas!
Maria saudou assim que entrou. Cris cumprimentou Amanda, Marina e Débora com um beijo no rosto e foi direto até o freezer, onde colocou as cervejas que tinha trazido. Depois, se virou para Mirella, que estava enfiando um pedaço de costela em um espeto duplo:
- Tá bonito isso, hein?
Ofereceu já lavando as mãos na pia:
- Quer ajuda?
Sabendo que, como de hábito, Mirella pediria:
- Segura o espeto pra mim.
Enquanto Amanda pegava dois copos e mais uma garrafa de cerveja no freezer, Maria tirou dois potinhos de vidro da sacola de papel que trazia e ofereceu um para Débora e o outro para Marina, que aceitou com receio visível:
- O que é isso?
Com o sorriso esplendoroso e enluarado que lhe era costumeiro, Maria respondeu:
- Kefir de leite.
Depois, caminhou até Amanda, que estava na frente do balcão da cozinha americana, servindo o primeiro copo de cerveja. Impediu-a de fazer o mesmo com o segundo:
- Não precisa. Eu trouxe chá de hibisco.
Como que para comprovar, tirou da sacola uma garrafa cheia de um líquido rosa. Amanda se desculpou:
- Sempre esqueço que você não bebe.
Maria a presenteou com um de seus sorrisos irresistíveis:
- Tudo bem, minha querida.
Antes de puxar mais um potinho da sacola que, àquela altura, Amanda já desconfiava que fosse encantada como a bolsa com feitiço indetectável de extensão da Hermione Granger:
- Eu também trouxe um kefir pra você e pra Mirella.
Erguendo o pote na altura dos olhos, Amanda examinou a coisa branca dentro dele com uma desconfiança indisfarçável:
- Um o quê?
Quem respondeu foi Débora, que já tinha pesquisado no google:
- “O kefir é o resultado de leveduras associada a microrganismos e misturam os probióticos (com microrganismos vivos) e os prebióticos (elementos indigeríveis). E por isso resultam em um grupo nutricional chamado simbiótico, conhecidos também como lactobacillus.”
Entre um gole de cerveja e outro, Cris falou:
- É tipo... Um iogurte caseiro. Sabe Yakult?
Deixando Maria indignada com a comparação:
- É muito mais do que isso, Cris. O kefir tem vários benefícios. Depois vocês pesquisam, tem tudo na internet, inclusive como cultivar. Mas qualquer dúvida me perguntem que eu explico.
Querendo pôr fim ao assunto, Débora, Marina e Amanda responderam quase juntas:
- Ok.
- Beleza.
- Tá.
Mirella convocou Maria para acender o fogo, uma vez que, sem sombra de dúvida, ela era quem melhor o fazia. Amanda voltou a encher o próprio copo e o de Débora e Marina. Cris sugeriu:
- Que tal um som  pra animar?
Na mesma hora, Amanda olhou para Débora:
- Você ainda tem aquela playlist foda?
Com um aceno de cabeça, Débora assentiu. Amanda ligou a caixa de som portátil, Débora a conectou em seu celular e colocou a seleção que Amanda tinha pedido. Quando “O Sol” de Vitor Kley começou a tocar, Amanda sabia - sem precisar olhar - que a primeira reação de Mirella tinha sido uma careta. Já Maria soltou um empolgadíssimo:
- Música! Afinal!
E começou a mover o corpo de uma maneira sensualíssima, que deixou Cris incapaz de fazer algo além de admirar a própria mulher dançando. Sorriu, inebriada com a cena e com as milhares de recordações que a atingiram... Teria permanecido ali, olhando e babando, se Maria não a chamasse. 
Maria riu, deliciada com o calor do corpo de Cris atrás do dela. Arrepiou inteira ao sentir a respiração em sua nuca e cantou, acompanhando a música. Ficaram dançando assim, alheias a tudo e todas, de um jeito que as demais já estavam acostumadíssimas.
Amanda se virou para Débora e Marina:
- E o Bruno? Eu convidei, mas ele nem visualizou minha mensagem.
Débora riu:
- Aquele lá, desde que começou a namorar, meio que sumiu.
Após se certificar que Mirella, Maria e Cris não estavam ouvindo, Marina perguntou para Amanda:
- Viu as últimas postagens da Flora?
Amanda deu de ombros:
- Não. Bloqueei ela quando terminamos, ela ficava me mandando um monte de coisa nada a ver.
Débora fez questão de informar:
- Essa semana teve um monte de indiretas pra você.
Não foi difícil para Amanda encontrar o motivo:
- Deve ser porque na terça-feira eu e a Mirella encontramos ela e a Paola na fila do cinema.
Débora não escondeu a surpresa:
- Sério? 
Muito menos Marina:
- Como é que você esconde uma coisa dessas?
Amanda foi sincera:
- Não contei porque achei que não tinha importância.
Em meio à turbulência familiar que estava atravessando, a ex namorada e a mãe dela tinham se tornado completamente irrelevantes. Claro que despertou a curiosidade das amigas:
- Como não, Amanda? Pode ir contando!
- Rolou barraco?
O questionamento fez Amanda pensar que, provavelmente, Débora assistia à muito mais novelas do que deveria.
- Claro que não! Só rolou um “oi” quando passamos por elas depois que compramos os ingressos, elas estavam um pouco atrás de nós na fila.  
Deixou escapar, num suspiro:
- Mas foi constrangedor, no mínimo.
Marina concluiu:
- Uma hora ela desencana.
Segundos antes de Mirella lembrar, sem sair de perto da churrasqueira:
- Amor, você vai fazer aquele seu pão de alho maravilhoso?
Pão de alho era algo que Mirella adorava, por isso Amanda se pôs de pé num salto:
- Com certeza!
Atravessou a sala rapidamente, numa linha reta em direção à Mirella. Enlaçou-a por trás e, puxando-a pela cintura, colou o corpo no dela e soprou em seu ouvido:
- Faço tudo... O que a minha mulher gostosa quiser...
Causando um gemido, arrepios e um quase desastre – por um triz Mirella conseguiu impedir que o espeto com corações de frango que tinha nas mãos caísse no chão. Após colocá-lo em seu devido lugar na churrasqueira, virou-se para Amanda e a beijou  com vontade.
Quando as bocas se separaram, trocaram um olhar intenso e apaixonado. Permaneceriam ali sorrindo, uma nos braços da outra, completamente enlevadas, se Mirella não falasse, de um jeito absolutamente bem-humorado:
- Adoraria ficar aqui assim pra sempre, mas... Temos pessoas para alimentar e embebedar. 
Riram juntas, trocaram um beijo rápido e Amanda foi providenciar a pasta de alho que era sua especialidade enquanto Mirella voltava a prestar atenção no bom andamento do churrasco.


O pão de alho foi muito elogiado e imediatamente devorado, mas Amanda não provou nem um pedaço, estava ocupada em esvaziar e encher o próprio copo – muito mais do que o das convidadas - repetidas vezes. Só percebeu que Mirela estava prestando atenção quando ela separou uma linguiça num prato e colocou em sua frente:
- Come.
Piscou para Amanda antes de levar o prato maior com o restante  das linguiças para a mesa onde Débora, Marina e Cris estavam. 
Vinda do banheiro, Maria parou na porta do corredor e analisou a cena. Amanda sozinha, apoiada no balcão da cozinha americana, Mirella na frente da churrasqueira e Cris conversando com Débora e Marina em volta da mesa do outro lado da sala. Perceptível para ela o contraponto de emoções, a alegria das outras, que Amanda tentava acompanhar em vão. Caminhou diretamente para ela, esperou até que Amanda a olhasse e só então soprou baixinho, para que ninguém mais escutasse:
- Sua energia tá bem esfumaçada hoje.
Apesar de ainda estranhar a maneira que Maria verbalizava as coisas, naquele momento aquilo fez total sentido para Amanda. Permitiu-se desabafar, contou tudo e quando terminou, as lágrimas estavam escorrendo por seu rosto.
A única coisa que Maria disse antes de se afastar foi:
- Você não é obrigada a nada. 
A frase, aparentemente tão simples, teve o poder libertador de mostrar à Amanda uma perspectiva que até então, ela não via. Durante um instante que pareceu durar uma vida, avaliou a situação como faria uma pessoa que não estivesse envolvida e chegou à conclusão mais incrível. Atravessou a sala e falou para que todas ouvissem: 
- Eu não vou no casamento da minha irmã.
Com uma felicidade visível, Débora e Marina foram as primeiras a reagirem:
- Mesmo?
- É sério isso?
Mirella tentou ser imparcial, mas foi denunciada pelo sorriso que não conseguiu reprimir:
- Tem certeza?
Não houve hesitação alguma por parte de Amanda:
- Tenho. Eu não faço questão nenhuma, só estou indo por culpa, na verdade eu não quero ir. Não quero olhar pros meus pais, não quero ter que me preocupar com como eles vão me tratar ou se eles vão ou não falar comigo. Minha presença lá vai ser um incômodo pra eles, mas vai ser muito pior pra mim. Além disso, eu não quero te expor, meu amor. Não assim, num lugar onde nós não somos bem-vindas. Não quero, não precisamos passar por isso.
Apesar da segurança com que Amanda falou, Mirella insistiu:
- E quanto à Juliana?
Pois sabia que esse era o ponto vulnerável, o verdadeiro centro do problema:
- Eu sei que a Ju me quer lá, mas sei também que ela vai ficar ainda mais tensa se tiver que se preocupar comigo. No fim, eu vou é atrapalhar. Então não tem mesmo porque a gente ir. 
Atirou-se nos braços de Mirella, que a recebeu com a consideração apaixonada de sempre:
- Por mim, o que você decidir está decidido.
Enquanto as duas se beijavam de forma inteiramente arrebatada, Débora e Marina comemoraram entre elas:
- Que alívio!
- Nem me fala!
E Cris soprou no ouvido de Maria:
- O que acabou de acontecer aqui?
A resposta foi igualmente sussurrada:
- A vida.
Fazendo com que Cris risse, inteiramente mergulhada no fascínio que Maria sempre lhe causaria, por mais que os anos se passassem.
Débora correu em direção ao próprio celular, procurou e colocou uma música que declarou:
- Perfeita para esse momento!
Antes de Marina puxá-la para dançar. Com os lábios ainda nos de Mirella, Amanda riu assim que identificou o som. Mas só se juntou às amigas quando o refrão entrou:

“What doesn't kill you makes you stronger” (O que não te mata te faz mais forte)
(Stronger -"What Doesn't Kill You" - Alexandra Leah Tamposi / David Gamson / Greg Kurstin / Jorgen Kjell Elofsson)

Apenas Maria aceitou o convite para acompanhá-las. Tentou puxar Cris, que recusou:
- Essa eu passo.
Mirella ficou do lado dela:
- Idem.


Só muito depois - o churrasco terminado, as grelhas, espetos e toda a louça lavada, as seis sentadas em meio ao silêncio preguiçoso que a comida, a bebida e o término da playlist de Débora tinha instaurado - Mirella colocou seu pen drive de músicas preferido para tocar:
- Pra fechar com chave de ouro.
Estendeu a mão para Amanda no momento exato em que Frejat cantava:

“Amor, meu grande amor
Não chegue na hora marcada”

Enlaçou-a pela cintura e cantou baixinho no ouvido dela, acompanhando Angela Ro Ro:

“Me venha sem saber
Se sou fogo
Ou se sou água”

Com os braços ao redor do pescoço de Mirella e o rosto colado ao seu, Amanda deixou escapar um suspiro de puro prazer, pelo simples fato de estar ali, nos braços da mulher que amava.
Cris foi muito mais rápida. Antes que Maria pensasse em tirá-la para dançar, a conduziu para o meio da sala - onde Mirella e Amanda estavam - e também começaram a dançar juntinhas.
Débora apenas olhou para Marina. Não precisou dizer nada, Marina se inclinou, com um sorriso tão divertido, provocante e debochado quanto o tom que usou ao propor:
- Shall we dance?
Juntaram-se aos dois casais de uma forma bem menos comportada, a boca de Marina percorrendo o pescoço de Débora, causando tremores e arrepios, deixando-a tentada a sugerir que escapassem disfarçadamente para o banheiro. 
Foi nesse exato momento que Maria cantou alto, junto com a música: 

“Que tudo que ofereço é...”

Cris, Mirella e Amanda a seguiram em resposta, igualmente empolgadas:

“Meu calor, meu endereço
A vida do teu filho
Desde o fim até o começo”

Débora e Marina riram e só então prestaram atenção na letra. Continuaram dançando, só que de uma forma totalmente diferente da anterior. Olhos nos olhos, a emoção crescendo e transbordando no instante em que cantaram uma para a outra:

“E quando eu te encontrar, meu grande amor
Por favor, me reconheça”
(Amor, meu grande amor - Angela Ro Ro)

Tão concentradas que sequer perceberam que tanto Amanda e Mirella quanto Cris e Maria fizeram o mesmo. 
Pois apesar de tudo que os três casais possuíam de oposto e diferente, compartilhavam a mesma verdade, a mesma vontade, a mesma crença de que, com amor, podiam e eram capazes de enfrentar e superar tudo que viesse pela frente.

FIM

Menines Lindes e Maravilhoses,
Tudo bem?
Mais uma história que chega ao fim e como todo fim, também é um novo começo.
De minha parte, foi maravilhoso poder revisitar Cris e Maria, resgatar Marina, Débora e Amanda e conhecer melhor a Mirella. Espero que tenham curtido tanto quanto eu!
Agradeço especialmente a todes que contribuíram com cotas, obrigadíssima também a quem leu, acompanhou, comentou e dividiu essa viagem comigo.
Gratidão eterna e até a próxima!
bjo muito mais do que suuuuuuper ultra hiper mega verdadeiramente gigantesco e especial no coração de cada ume e todes,
Di

Postado em 21 de novembro de 2018 às 18h.

3 comentários:

  1. Chave de ouro, foi assim q terminaste esse romance.
    Lindoooo...
    Maria sempre sábia deu uma luz para Amanda q antenadissima captou a mensagem.
    É libertador qdo nos afastamos do sentimento de culpa, adorei a atitude de Amanda.
    Parabéns... encerrando com a Ângela Ro Ro... perfeito.

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  2. Foi bom dares mais história à Amanda, ficamos a conhecer a sua evolução, e que também ela teve direito ao seu final feliz. Nos destes também a conhecer como a relação tumultuosa de Debora e Marina chegou a uma sintonia perfeita. Nesta viagem por estas vidas foi maravilhoso revisitar e viver um pouco do mundo especial das "Marias"... É pena que esta visita foi curta e já acabou, uma quer sempre mais e não se cansa de ler as tuas histórias... Já estou à espera da próxima aventura... ;)
    Beijos ;)

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  3. Fico sem palavras para descrever o quanto cada capítulo de cada conto é maravilhoso!
    Mais uma que tomou um pedacinho do meu coração, foi incrivel do início ao fim.
    Parabéns Diedra, por mais uma vivência contada de forma impecáve. ❤

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